Ttulo: Lady Rebelde.
Autora: Barbara Cartland.
Dados da Edio: Livros Abril, So Paulo, 1984.
Ttulo Original: A Miracle In Music.
Gnero: romance.
Digitalizao: Dores cunha.
Correco: Edith Suli.
Estado da Obra: Corrigida.
Numerao de Pgina: Rodap.

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Lady Rebelde
Acordado no meio da noite pelos sons da mais bela melodia que j tinha
escutado, o duque de Arkholme foi atrado para a sala de msica do
palcio, curioso para descobrir quem tocava piano com tanta perfeio. No
ambiente suavemente iluminado pelas velas de um castial de prata, ele 
viu uma jovem de cabelos ruivos que brilhavam feito chamas. O duque, 
ainda sem saber se vivia um sonho ou um pesadelo, surpreendeu-se, quando 
a bela desconhecida se levantou e, apontando-lhe uma arma, falou de modo 
ameaador: "Sente-se, milorde. Exijo que me oua! "


Barbara Cartland
Lady rebelde
Leitura - a maneira mais econmica de cultura, lazer e diverso.
LIVROS ABRIL
Romances com Corao
Caixa Postal 2372 - So Paulo

Ttulo original: "A Miracle In Music"
Copyright: (c) Cartland Promotions 1983
Traduo: Slvia Macedo
Copyright para a lngua portuguesa: 1984 Abril S. A. Cultural - So Paulo
Esta obra foi composta na Linoart Ltda. e impressa na Editora Parma Ltda.

CAPTULO I

O duque de Arkholme fechou seus ouvidos  apresentao inexpressiva de
uma pima donna italiana, que interpretava uma ria da pera Fausto.
Conhecedor de msica, considerou a segunda parte da interpretao quase 
intolervel e, como sempre, causou-lhe espanto o fato de pessoas de 
gosto apurado em outros assuntos no possurem o menor discernimento no
tocante  msica.
Na verdade, analisava agora o convite que lhe dirigira a anfitri, lady 
Lawson, para que ficasse em sua companhia depois que os outros convidados 
deixassem a manso.
O duque certamente sabia que intenes se escondiam por trs daquela 
proposta.
No momento, lorde Lawson se encontrava no norte da Inglaterra e o duque 
suspeitava de que aquela recepo fora cuidadosamente improvisada nos 
dois dias anteriores apenas por sua causa.
Logo que chegara  manso em Berkeley Square percebera, pela maneira
calorosa como a bela lady Eileen o cumprimentara e pela expresso de seus
olhos sedutores, que ela o desejava.
O duque, um dos homens mais poderosos da Inglaterra, imensamente rico e 
ainda solteiro, teria que ser muito tolo para ignorar que no apenas era
um bom partido, como tambm um presente para qualquer lady que
conseguisse atrairlhe a ateno a ponto de tornar-se sua amante.
O duque, alm de mestre na arte do amor, destacava-se com raro talento 
nas caadas e corridas de cavalo. com o passar
dos anos, todavia, tornara-se mais exigente e tambm extremamente seguro 
dos prprios atrativos.
Ao sentar-se ao lado de lady Lawson  mesa do jantar, ficara desconfiado 
com o tom afetadamente melodioso de sua voz.
- Gostaria de poder contar com a preciosa opinio de Vossa Graa - 
dissera ela.
- A respeito de qu? - indagara ele, j prevendo a resposta.
- Consegui convencer meu marido a me dar um Steinway de presente, mas ele 
tem se queixado tanto do preo que pagou pelo instrumento, que estou 
ansiosa para me certificar de que possuo o melhor piano, capaz de tocar 
as msicas no tom exato para agradar a Vossa Graa.
A maneira como a mulher falou, com olhos insinuantes e lbios 
entreabertos e convidativos, deixou claro que sua inteno no era tanto 
a de agrad-lo com uma msica de boa qualidade, quanto a de mostrar-lhe 
seus conhecimentos e habilidades em outra rea.
De imediato, o duque deduziu que o Steinway em questo no devia se 
encontrar em nenhum dos sales de recepo da casa, mas sim no prprio 
boudoir de lady Lawson.
Alguns meses antes, o duque declarara casualmente numa roda de conhecidos 
que possua um piano na saleta ntima, anexa ao quarto, em sua residncia 
em Park Lane.
- Quando no consigo dormir, o que raramente acontece
- dissera ele -, sento-me ao piano e toco melodias que me acalmam. 
Depois, com as notas ainda ressoando nos ouvidos, adormeo com 
facilidade.
Arrependera-se mais tarde por ter falado to irrefletidamente. De fato, 
suas palavras espalharam-se por todos os elegantes sales de Londres e 
acabaram publicadas na coluna de mexericos de um jornal local.
A partir da, todas as mulheres que tencionavam conquist-lo diziam ter 
um piano em seus boudoirs e o convidavam para examin-lo.
Era divertido ver como todos aqueles instrumentos haviam sido to 
obviamente recm-instalados, num cmodo decorado sem a menor preocupao 
com a msica.
Na maioria dos casos, a habilidade musical das proprietrias dos Steinway 
ou Broadwood se limitava  execuo de alguns poucos exerccios a cinco
dedos.
Agora, enquanto a cantora italiana tremulava nos agudos, o que o teria
feito estremecer se estivesse prestando ateno, o duque ponderava se os
atrativos de lady Lawson seriam suficientes para faz-lo comear um novo
affaire de coeur quando mal acabara outro.
Aos trinta e trs anos, o duque constatava que seus casos amorosos tinham
sido at ento ardentes, tempestuosos, rapidamente inflamados e no
entanto extintos com igual rapidez.
No sabia explicar por que se cansava to facilmente das mulheres que 
escolhia para amantes.
Uma pergunta que martelava em alguma parte de seu crebro- tambm estava 
presente na conversa de todos os seus parentes: quando e com quem o duque 
de Arkholme se casaria?
Sendo filho nico, no existia outro herdeiro direto ao ducado e ele 
tinha conscincia de seu compromisso em relao  longa linhagem de 
ancestrais nobres: precisava de um herdeiro!
"No h pressa", repetia, entretanto, para si mesmo, evitando entrar em 
contato com jovens em idade de casar. Era astuto demais para aceitar as 
centenas de convites de pais e mes ambiciosos, que viam em seu ttulo de 
nobreza e em sua grande fortuna timos complementos para suas prprias 
linhagens aristocrticas.
O interesse do duque, portanto, voltava-se sempre para mulheres casadas 
com maridos complacentes ou com homens que, embora intolerantes, 
preferiam reprimir o cime.
Mesmo contra a vontade, esses maridos viam-se obrigados a admitir que o 
duque, muito mais hbil, facilmente poderia atingi-los num duelo, caso 
fossem tolos a ponto de desafi-lo.
Ainda que essas competies fossem proibidas por lei e vistas com 
descontentamento pela rainha, o duque havia duelado vrias vezes na 
Inglaterra e na Frana, tendo vencido todas as disputas, deixando seus 
pobres oponentes com o brao na tipia por dois ou trs meses. Como sabia 
manejar uma arma com preciso, jamais feria mortalmente os oponentes.
Sabendo que seriam derrotados, a maioria dos maridos trados preferia
ignorar o que se passava entre as esposas e o
jovem duque, tornando-se objeto de pena da mulher e de riso por parte dos
amigos.
Dessa maneira, lorde Lawson certamente no se daria ao trabalho de fazer 
uma cena, caso a esposa tomasse o duque como amante. Importava-lhe apenas 
que ela o fizesse com discrio.
Lawson, bem mais velho que a bela lady Eileen, dedicava-se  criao de 
cavalos de raa, deixando-a constantemente sozinha enquanto viajava pelos 
quatro cantos do pas, a fim de comparecer a corridas, onde se tornava 
ainda mais rico e ganhava um nmero considervel de prmios.
Inevitavelmente, Eileen Lawson acabara por desencantar-se com seu 
casamento, brilhante e espetacular apenas do ponto de vista social e 
financeiro. Ao mesmo tempo, porm, respeitava o marido, o que o duque
considerava um ponto favorvel; mesmo que acabasse se apaixonando por
ele, a jovem lady teria o cuidado de no dar margem a mais boatos do
que os estritamente inevitveis.
Certamente falariam deles, caso iniciassem uma relao amorosa. Seriam 
vistos juntos e isso provocaria sorrisos e olhares compreensivos e cheios 
de cumplicidade entre os habitues dos clubes, que se ocupavam apenas de 
comentar os escndalos recentes e de localizar novos casos amorosos, com 
o faro de ces perdigueiros.
Nos ltimos tempos, o duque andava extremamente cauteloso para no se
envolver com mulheres que, alm de lhe entregarem o corao, perdiam
tambm a razo.
Regra geral, era o homem mais atraente que surgia nas vidas dessas
mulheres e isso as levava a confundir envolvimentos passageiros com o
amor real. Na verdade, no sabiam como lidar com as desconhecidas
sensaes que ele lhes dava a conhecer.
O duque, invariavelmente, surpreendia-se ao constatar que a maioria dos 
homens mantivesse suas espossas frustradas e ignorantes do que seria o 
fogo ardente de uma paixo.
Em consequncia, essas mulheres o achavam excepcionalmente diferente de 
todos os outros que haviam conhecido, experimentando grandes momentos de 
excitao e xtase, fato
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que levava o duque a julgar-se um amante habilidoso e extraordinrio.
Ao mesmo tempo, isso o tornava muito mais cuidadoso quanto  questo de 
iniciar um novo caso de amor.
Dessa vez, nada era diferente: o duque sabia que aquela mulher jovem e 
atraente arderia de desejo caso ele a tocasse com carinho.
Sim, ele previa no s como aquele corpo feminino reagiria s suas 
carcias, mas tambm o que tudo aquilo causaria a ele: o final da 
histria nunca mudava.
"O que posso fazer?", pensou. "Devo ficar, como ela me pede, ou arranjar 
alguma desculpa e ir embora com os outros convidados? "
Se resolvesse ficar, ele se retiraria discretamente para outro aposento 
quando os convidados comeassem a se despedir e lady Lawson s iria  
procura dele quando a porta principal da casa estivesse fechada. Ainda 
fingindo no possuir qualquer outra inteno, ela o convidaria a subir ao 
seu boudoir, para examinar o novo Steinway.
O aposento estaria cuidadosamente preparado, apresentando iluminao 
indireta e a suave fragrncia de algum perfume extico, mesclada ao aroma 
de flores, que fariam o lugar parecer um caramancho. Embora estivessem 
em maio, as noites se conservavam muito frias e, sem dvida, a lareira 
ficaria acesa, tendo uma bela escultura sobre uma sofisticada cornija.
No haveria tempo para inspecionar o piano, que com certeza ocupava uma 
posio que no interferia na decorao confortvel. O duque s deveria 
ter olhos para a bela ocupante do boudoir, que com os lbios ligeiramente 
entreabertos o fitaria intensa e convidativamente.
Pouco precisaria fazer ou dizer a fim de que ela corresse para seus 
braos. Depois, ainda entre beijos ardentes, ele perceberia que a porta 
no canto da sala levava ao quarto da mulher. L dentro, apenas a luz 
discreta de algumas velas deixaria ver a ampla cama de casal, recoberta 
por uma colcha de cetim e rendas.
A cantora italiana acabou de interpretar outra ria, e todos
bateram palmas. O duque tambm aplaudiu, automaticamente, despertando de 
seus devaneios.
Nesse momento, lady Lawson levantou-se para conduzir os convidados at 
outra sala, onde seria servido o champanhe.
Enquanto a seguia, o duque observava o quanto ela era graciosa, com sua 
ampla saia-balo realando a cintura fina. Admirou-lhe tambm a pele 
muito alva do pescoo esguio e os diamantes que cintilavam em seus 
cabelos sob o brilho das luzes.
"No resta dvidas de que se trata de uma mulher muito atraente", pensou.
Ao chegar  porta do salo principal, porm, lady Lawson parou por um 
instante para instruir um dos criados e sua voz soou spera, muito 
diferente da maneira doce e amvel como falara ao duque durante o jantar. 
Ouvindo aquilo, ele ficou de tal forma desestimulado que numa frao de 
segundo decidiu o que iria fazer.
"No", disse a si mesmo. "Esta noite, no! "
Vinte minutos depois, j se encontrava confortavelmente instalado em sua 
carruagem, voltando para a manso Arkholme.
Ao se despedir de sua anfitri, muito antes do ltimo convidado estar 
pronto para sair, pde ver o desapontamento estampado nos olhos dela e 
percebeu que sua vontade era pedirlhe que mudasse de ideia.
Entretanto, o duque sabia ser duro quando queria e, ainda que ela tivesse 
se ajoelhado a seus ps, implorando para fazerem amor, ele manteria sua 
deciso, pois naquele momento no tinha a menor disposio para envolver-
se com ela.
Agora, a caminho de casa, refletia a respeito de sua atitude. Por que, 
afinal, um detalhe to insignificante teria sido decisivo para ele? A 
resposta era simples: procurava a perfeio, mesmo julgando que nunca a 
encontraria.
"No costumo ser to introspectivo  noite", pensou, recostando-se nas 
almofadas e apoiando os ps no banco da frente da carruagem.
Concluiu, ento, que se encontrava naquele estado de esprito 
simplesmente porque estava s, o que no era comum. Na sua posio, vivia 
cercado por um nmero enorme de
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indivduos cujos objetivos se resumiam quase que exclusivamente em 
diverti-lo e interess-lo. O duque gostava deles e considerava-os bons 
amigos.
Era seu costume sair das festas acompanhado por dois ou trs deles, para 
esticar um pouco a noite, a no ser,  claro, que estivesse envolvido com 
a bela dona da casa onde houvessem jantado, ou que algum compromisso 
particular o obrigasse a sair sozinho.
Naquela noite, talvez por imaginar que ficaria com lady Lawson, no 
convidara nenhum de seus amigos para acompanh-lo at em casa, embora 
houvesse vrios deles na recepo.
Na verdade, sara sem que eles percebessem e sabia que ficariam 
surpresos.
O curso de seus pensamentos levou-o a refletir novamente sobre sua vida. 
Por que, afinal, resolvera no representar o papel que esperavam dele, 
naquela noite?
"Acho que estou ficando velho!", pensou, sorrindo. Entretanto, depressa 
compreendeu que no fizera o bvio justamente porque era bvio.
"Estou cansado de ser perseguido e cair em armadilhas de mulheres, antes 
mesmo de saber se as quero!", disse a si mesmo.
Sim, essa era a razo que o levava a entediar-se com as relaes 
superficiais e puramente fsicas em que se envolvia.
"Eu gostaria de ser o caador, no a presa!", concluiu ele, intimamente.
Na realidade, sendo rico e dotado de personalidade marcante, era invejado 
pela maioria dos homens. Porm, havia nisso tudo o mal de nada precisar 
ser conquistado: as coisas vinham sem qualquer esforo.
Talvez se sentisse melhor se tentasse fazer algo incomum e arriscado. 
No! Isso no o satisfaria naquele momento em que todo o seu ser almejava 
no uma conquista fsica, mas "espiritual".
H tempos o duque no conhecia uma mulher que lhe desafiasse a 
imaginao, o idealismo e o senso de cavalheirismo. Elas o despertavam 
fisicamente, pois eram belas e atraentes, nada mais que isso.
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- Mas que diabos estou querendo? - perguntou ele, e sua voz grave ecoou 
no interior da carruagem que j atravessava o prtico da manso Arkholme, 
em Park Lane.
 sua chegada, um tapete vermelho foi estendido nos degraus e um lacaio 
usando a libr da famlia Arkholme abriu a porta da carruagem. Ao sair, o 
duque viu, como de hbito, outros trs criados e o mordomo esperando por 
ele no hall iluminado.
Assim que entrou na manso, entregou-lhes automaticamente a capa, a
bengala, as luvas brancas e o chapu alto.
Depois de um momento, o mordomo disse:
- H sanduches e champanhe gelado no estdio, preparados para Vossa 
Graa.
- Obrigado, Newman, mas no tenho fome. Vou me deitar - replicou o duque,
antes de subir as escadas.
Tudo era, de fato, sempre igual e previsvel. Sabia que, assim que 
sasse, a porta seria trancada e o criado da noite tomaria seu lugar na 
larga poltrona, ao lado da porta. As velas seriam apagadas, com exceo 
de duas ou trs, e a casa mergulharia em completo silncio, at que os 
primeiros empregados chegassem para o trabalho s cinco horas da manh 
seguinte.
Suspirando, percorreu o corredor que levava at a sute principal, 
ocupada pelos duques de Arkholme desde que a manso fora construda, no 
final do sculo XVIII.
Henry Holland, o mesmo arquiteto que redesenhara a Carlton House para o 
prncipe de Gales, fora contratado pelo duque daquela poca. Naquela 
ocasio, a manso Arkholme era uma das mais belas em toda Park Lane e, 
com certeza, a maior de todas.
Sua austeridade, porm, diminura com o passar dos anos, sobretudo agora 
que o atual duque tinha um interesse especial por jardinagem.
Ele plantara pessoalmente as glicnias e trepadeiras que subiam pelas 
paredes dos fundos da casa e mandara colocar pequenos balces, que agora
estavam cobertos por folhagens. Quando as flores desabrochavam, formavam
no s um quadro agradvel aos olhos, como tambm exalavam um perfume que
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penetrava nos quartos, dando aos seus ocupantes a impresso de se 
encontrarem no campo.
Mas no momento os pensamentos do duque no se voltavam para seus bens, 
que incluam vastas propriedades em outras partes da Inglaterra e uma 
manso em Oxfordshire, to grande e magnfica que mal parecia uma 
residncia particular.
Ele no conseguia esquecer o impulso que o levara a recusar o convite de 
lady Lawson, atitude que certamente a deixara ressentida e incerta, 
tentando imaginar no que teria falhado.
Assim que chegou  suite, o valete que o esperava ajudou-o a trocar de 
roupa rpida e silenciosamente.
Finalmente, quando se viu a ss, o duque apagou as velas ao lado da cama, 
decidido a dormir e se desligar daquelas reflexes.
Costumava rir das pessoas que diziam ter dificuldade para dormir quando
apreensivas ou frustradas. Porm, naquele momento, ele prprio se via em
igual situao, preocupado demais para conciliar o sono e deixar que o
 dia seguinte trouxesse resposta s suas dvidas.
Ali, deitado no escuro, ele reavaliava sua vida, tentando imaginar por
que desperdiara preciosos anos com esportes e mulheres.
"Que outra alternativa existe?", perguntou-se, por fim.
com certa sensao de desconforto, admitiu que a resposta era o
casamento, pois s assim teria uma mulher e filhos para lhe ocuparem o
tempo.
Se viesse a se casar, ficaria mais tempo no campo e no disporia de 
tantas horas livres para passar em boudoirs, "inspecionando Steinways
novos", ou respondendo aos convites levemente perfumados que chegavam com
frequncia  manso Arkholme.
- Mulheres! Mulheres! - exclamou ele, irritado.
Percebia agora que h tempos vinha travando batalhas consecutivas com 
mulheres e que, se no tomasse cuidado, mais cedo ou mais tarde acabaria 
vencido.
- Por que estou to pessimista? - perguntou-se em voz alta. - Ningum 
pode me obrigar, a, fazer qualquer coisa que
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eu no queira. De agora em diante, no aceitarei mais presses, seja para 
ir para a cama ou para me casar com alguma garotinha, pelo simples fato 
de que ser uma duquesa competente!
Como essa ideia o fez estremecer, percebeu que no existia outra sada a 
no ser continuar fazendo o que sempre havia feito.
Confuso demais na semi-obscuridade do quarto, resolveu deixar sem 
resposta as perguntas que o atormentavam, pelo menos at a manh 
seguinte, quando, possivelmente, daria at boas risadas por ter se 
preocupado  toa.
Lembrou-se ento de que convidara um de seus amigos mais ntimos para 
tomar o desjejum em sua companhia, antes de irem juntos ao Covent Garden. 
Naquele famoso teatro, o duque deveria selecionar alguns dos 
participantes de um concurso que abrira h mais de um ano com o objetivo 
de encorajar novos compositores.
A prpria rainha o motivara  iniciativa, ao lamentar que a Inglaterra 
nada oferecesse ao mundo em termos de msica, como a Frana e a ustria 
faziam.
O duque ficara surpreso.
- Tenho ouvido falar muito da grandeza de Strauss e Offenbach. Quando o 
prncipe Albert e eu fomos a Paris, o ar parecia vibrar com a msica do 
pera - comentara a rainha, antes de acrescentar, sorrindo: - Paris , 
sem dvida, a cidade mais alegre do mundo!
- Os franceses adoram msica, Majestade - respondera o duque.
- " Os austracos tambm. Acho que nos faria bem, enquanto nao, sermos 
um pouco mais musicais. Talvez assim nos tornssemos mais felizes.
- Dou-lhe inteira razo, Majestade.
Era surpreendente descobrir que a rainha se preocupava com aquelas 
coisas, dizendo inclusive que considerava o Castelo de Windsor e o 
Palcio de Buckingham tristes demais.
A soberana casara-se e subira ao trono com apenas dezoito anos, quando 
era uma garota bonita e alegre, que adorava danar e se considerava 
musical, embora o duque fosse bastante c tico a esse respeito.
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Apesar disso, acatara com simpatia as palavras de Sua Majestade. Como 
profundo apreciador de msica e generoso contribuinte do Covent Garden 
Opera House, resolveu promover algo que movimentasse os meios artsticos 
ingleses.
Para tanto, conversara com os diretores do Covent Garden e institura um 
concurso entre compositores de qualquer nacionalidade, sob a nica 
condio de que os trabalhos apresentados ainda no tivessem sido 
publicados.
Os melhores autores seriam premiados e, possivelmente, iniciariam uma 
brilhante carreira.
A ideia fora acolhida com entusiasmo e o duque enviara  rainha 
pormenores do que estava sendo feito. Em retribuio, recebera da parte
dela uma carta elogiosa, escrita pela dama de companhia de Sua
Majestade.
Seria interessante ver o que se reservava para a segunda audio de 
msicos, no dia seguinte.
A primeira havia sido frustrante. Apenas dois dos compositores possuam 
alguma condio de ter seus trabalhos publicados, e mesmo assim 
dificilmente chegariam a obter sucesso perante o pblico.
O que de fato o duque buscava era algo original, brilhante, com aquele 
incomparvel toque de magia que no pode ser ensinado ou explicado, j 
que  inerente ao prprio compositor.
A primeira audio, que durara trs dias, recebera tanta cobertura da 
imprensa que o duque tinha certeza de que ainda havia dezenas ou at 
mesmo centenas de concorrentes, ansiosos por uma chance de alcanar a 
fama.
Como seria quase impossvel ouvir a todos, ele incumbira o diretor do 
teatro da tarefa de separar os concorrentes mais fracos daqueles que ele 
ouviria pessoalmente.
"Preciso descobrir algum realmente bom", pensara, ainda que soubesse 
que seria quase to difcil como encontrar a mulher ideal.
Agora, enquanto um estado de sonolncia atingia o duque, seus pensamentos 
o levavam a uma espcie de sonho desconexo, onde imaginava escutar a 
msica que tanto procurava.
A melodia quimrica parecia penetrar em sua mente, embalando
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seu sono. Alguns minutos depois, no entanto, ele notou que os sons
que ouvia na realidade estavam sendo executados na sala anexa a seu
quarto!
Abriu os olhos no escuro e ficou imvel por um momento. No havia 
dvidas, no podia estar enganado! Por mais estranho que pudesse parecer, 
algum se sentara ao piano e tocava uma melodia maravilhosa.
Permaneceu quieto por alguns minutos, depois se levantou da cama e 
acendeu uma vela, como se acreditasse que, com a luz da chama, o som 
pudesse desaparecer.
Mas no foi isso o que aconteceu. Pelo contrrio, agora, j fora do 
cortinado, o som chegava a seus ouvidos ainda mais nitidamente do que 
antes.
Apanhou o robe numa cadeira e vestiu-o, calou os chinelos e caminhou em
direo  porta de comunicao com a sala.
Ao tocar a maaneta, deu-se conta de que no se enganara. A msica no
era apenas melodiosa, mas vibrante, genial, enfim, exatamente o que 
estava procurando.
Por um momento pensou que aquilo poderia ser brincadeira de seus amigos e 
que, quando entrasse na sala, os encontrari dando boas risadas.
Passou a mo pelos cabelos e abriu a porta, decidido.
Durante alguns segundos ficou perplexo diante da sala ilu minada apenas 
por uma vela colocada sobre o piano. Em se guida, percebeu a silhueta da 
pessoa que tocava. No entanto o cmodo era muito grande, tornando difcil 
distinguir na  penumbra quem estava l.
O duque aproximou-se em silncio, tentando imaginar quem seria o
visitante. Mas qual no foi sua surpresa ao constatar que se tratava de
uma mulher!
Vislumbrou um rosto pequeno, alvo e franzino, emoldurado por cabelos 
ruivos escuros que, sob a luz da vela, pareciam brilhar como pequenas
chamas.
Assim que a msica tornou-se mais suave, o duque perguntou, com a voz
spera:
- Quem  voc e o que est fazendo aqui?
A mulher parou de tocar de imediato e apanhou algo em
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suas mos. A seguir, completamente atnito, o duque viu que ela apontava
um revlver em sua direo.
- Sente-se, milorde - ordenou ela. - Quero que me oua. No tem outra 
opo, exceto fazer o que estou lhe pedindo.
- Repito minha pergunta: quem  voc e o que est fazendo aqui?
- Pensei que tivesse ficado claro - replicou ela, ainda apontando a arma. 
- Estava tocando para Vossa Graa. Quero que oua esta msica. Se tiver 
tanta sensibilidade musical quanto apregoam, sei que ir apreci-la.
A moa no falava com rudeza, mas havia um tom de sarcasmo em sua voz, 
como se o condenasse por algum crime que ele ignorava ter cometido.
Achando que aquele era o encontro mais estranho que j lhe acontecera na 
vida, o duque indagou:
- Como conseguiu entrar aqui? Claro, s pode ter subornado um de meus 
criados!
-  uma boa pergunta, uma vez que o suborno parece ser a nica maneira de 
se aproximar de Vossa Graa. Infelizmente, porm, no tenho condies de 
fazer isso. Portanto, fui obrigada a entrar por uma das janelas de sua 
manso.
- Pela janela! - exclamou o duque.
S ento, olhando para o lado, notou que a janela que dava para a sacada 
estava aberta. Jamais pensara que, graas s glicnias e trepadeiras que 
cobriam os fundos da casa, fosse possvel que algum subisse at os 
aposentos do primeiro andar.
Aquela, sem dvida, era uma tarefa bastante perigosa, principalmente para 
uma moa de aspecto to frgil e delicado.
- Deve saber que eu poderia acus-la por invaso de propriedade e que, se 
eu chamar meus criados, voc poder ir para a priso - advertiu o duque.
- Sim e por esta razo vim armada. Ter que me ouvir tocar, milorde, caso 
contrrio receber uma bala no brao a no ser que por engano eu o atinja 
no peito ou no corao.
- Prefiro no correr esse risco. Nunca confiei em mulheres armadas.
Atenderei ao seu pedido.
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- Obrigada - disse a jovem. - E agora, gostaria que se acomodasse em um 
lugar onde eu possa v-lo, a fim de evitar que me prepare alguma cilada.
- Como tocar um alarme para meus criados, por exemplo? Poderei fazer isso 
antes que voc consiga chegar  rua.
- Vou me preocupar com isso quando for necessrio. Por enquanto sente-se,
milorde, e oua a msica que no ser apresentada na audio de amanh,
porque no tenho dinheiro suficiente para subornar as pessoas que Vossa
Graa encarregou de selecionar os compositores para o concurso.
Houve um silncio constrangedor, durante o qual o duque a encarou
incredulamente.
- Est insinuando que apenas os que do dinheiro para a banca examinadora
so ouvidos? - indagou ele.
- No queira me enganar, milorde, fingindo nada saber sobre isso. Se o
compositor no pode pagar no mnimo cinco soberanos de ouro para ter sua
partitura examinada,  mandado embora, sem maiores explicaes. Apenas
lhe dizem que no tem condies de merecer a ateno de Vossa Graa.
A maneira como ela falava era to cheia de mordacidade e rancor que o 
duque pensou que em toda a sua vida nunca fora tratado com tanto descaso.
- Estou surpreso! Garanto que desconhecia inteiramente essas ocorrncias.
- Se o que est dizendo  verdade, Vossa Graa ter de admitir seu 
desconhecimento sobre o mundo da msica, no qual pensa brilhar como um 
farol. No meio musical campeiam a desonestidade e as intrigas. Se uma 
composio  roubada, no h nada que o autor possa fazer para defender-
se. E, no geral, a condio para ser ouvido  pagar pelo privilgio.
As palavras pareciam jorrar de dentro de uma alma profundamente 
ressentida. O duque sentou-se ento em uma poltrona e cruzou as pernas.
- Muito bem. Mais tarde quero que me d maiores detalhes a esse respeito. 
Voc veio at aqui, armada, para me obrigar a ouvir composies que, de 
outra forma, no chegariam at mim. Pronto, estou  sua disposio. Os 
trabalhos so seus?
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- No, so de meu pai...
O duque teve a impresso de que ela iria acrescentar mais alguma coisa. 
Entretanto, apenas colocou o revlver sobre o piano e comeou a tocar.
Em primeiro lugar, concluiu a pea com que o acordara e ele a reconheceu 
como uma verso excepcionalmente criativa de uma cano folclrica 
hngara.
Sentia que seriam necessrios violinos ciganos, estepes e montanhas 
cobertas de neve como cenrio para realar a beleza daquela composio. 
No entanto, a habilidade da jovem ao piano era to grande que seu toque 
parecia reunir todos esses elementos: o duque chegava quase a v-los e 
ouvi-los.
Assim que deu o acorde final, iniciou uma cano de amor, suave, delicada 
e persuasiva, avanando, recuando e, gradualmente, atingindo uma emoo 
crescente no momento da entrega, do clmax do prazer.
To sutil e bela era a melodia que por um momento o duque esqueceu-se de 
onde estava e deixou-se levar em devaneios. De repente, porm, teve um 
sobressalto, sob o impacto das notas que anunciavam uma marcha fnebre, 
cheia de dor, lamento e saudades.
Quando a msica tornava-se quase insuportavelmente triste, entrou um tema 
mais ameno, que parecia falar na esperana e na f de que a morte no era 
o fim, mas apenas a passagem para alguma outra coisa maior e 
infinitamente mais bela.
Pouco antes de terminar, a marcha fnebre voltou  realidade da morte e 
nesse instante a jovem levantou as mos do piano.
Por uma rao de segundo, como se ela tambm se tivesse deixado levar 
pela emoo, houve um silncio absoluto. Depois, lentamente, quase como 
se estivesse saindo de um transe, voltou-se para o duque, com os olhos 
muito abertos e cheios de dor.
- Agora... Vossa Graa entende? - indagou, numa voz que no passava de um 
murmrio rouco.
- Por que voc veio at aqui? Sim, claro que entendo! Diga-me
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quem  seu pai e por que no lhe foi possvel participar do concurso.
A jovem nada respondeu e depois de alguns instantes ele continuou:
- No  possvel que, com tanto talento, ele no tenha sido reconhecido!
- Concordo. Parece inacreditvel e sempre penso nisso. Porm, Vossa Graa 
est no topo da pirmide e no faz a menor ideia do que  estar na base.
O desprezo voltara  sua voz e o duque props:
- Vamos comear do incio. Como voc se chama?
- Vanessa Szeleti.
- Voc  hngara! - exclamou ele, confirmando suas suspeitas.
- Papai  hngaro. Chama-se Sandor Szeleti e era um violinista bastante 
conhecido em seu pas. Mas tem tido dificuldade em conseguir alguma coisa 
aqui na Inglaterra, onde, como deve saber muito bem, os estrangeiros no 
so bem-vistos.
- Se ele toca to bem quanto voc, no entendo como no houve quem 
estivesse disposto a ouvi-lo e ajud-lo.
- As pessoas que conhecem e admiram meu pai no so ricas. Apesar disso,
vivamos com relativo conforto sempre que ele conseguia um lugar numa 
orquestra.
- E o que aconteceu?
- O frio e a umidade daqui afetaram as mos de papai, impedindo-o de 
tocar devido s articulaes rgidas e doloridas. - Havia um tom de 
tragdia na voz de Vanessa, quando prosseguiu: - Pensamos que fssemos 
morrer de fome, at que minha me convenceu-o a transcrever seus
 trabalhos antes que suas mos piorassem.
- E essas composies no atraram nenhuma ateno?
- Nenhuma. Minha me acabou por morrer e, como o desejo de papai era 
segui-la, ficou to doente que agora nem sequer se levanta da cama.
Sentiu-se impossibilitada de falar por um momento. Em seguida, fazendo um 
esforo sobre-humano para se controlar, continuou:
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- Copiei as composies dele e muitas vezes levei-as a teatros. Toquei 
para agentes e diretores. Roubaram-me algumas das partituras e chegaram 
mesmo a insinuar que s as levariam em conta se eu concordasse com... 
seus termos.
A forma como ela falou, deixou bem claro que termos eram aqueles e o 
horror que tais sugestes lhe haviam despertado.
- Estou absolutamente desesperada - continuou Vanessa.
- Papai e eu morreremos de fome se eu no conseguir arranjar algum 
dinheiro. Nossas privaes chegaram ao limite do suportvel.
Como o duque continuasse em silncio, Vanessa fitou-o interrogativamente 
antes de dizer:
- Vim pedir ajuda porque  a ltima chance que tenho de salvar a vida de 
papai. Vossa Graa se coloca como um patrono da msica, mas, na verdade, 
est apenas servindo  ganncia daqueles que tiram dinheiro de pessoas 
que pouco tm.
Respirando fundo, ela continuou, com mais veemncia:
- Milorde, acredito que  inteligente o bastante para compreender o que 
vm fazendo em seu nome. Ou ser que ainda no percebeu que os 
verdadeiros talentos lhe esto sendo escondidos para que os bajuladores 
encham os bolsos s suas custas?
Vanessa falava novamente com desprezo e sarcasmo. De repente, como se 
percebesse que estava cometendo um erro, disse com voz trmula:
- Desculpe... estou sendo rude. No  essa a minha inteno. O problema  
que estou to desesperada que, se Vossa Graa no me ajudar, acho que 
serei... capaz de mat-lo e roubar daqui tudo o que puder para... tentar 
salvar a vida de meu pai!
O duque teve certeza de que ela no estava fingindo e de que realmente 
chegara ao limite de seu autocontrole.
Ele se levantou e Vanessa apanhou rapidamente o revlver de cima do 
piano.
- No pedirei que confie em mim - disse ele, calmamente.
- Voc no tem nenhuma razo para isso. Saiba apenas que
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as msicas que voc tocou so exatamente o que venho procurando em vo 
nas ltimas audies que promovi.
Vanessa encarou-o com um misto de esperana e incredulidade. Em seguida, 
convencida de que ele estava sendo sincero, deixou o revlver cair ao 
cho e cobriu o rosto com as mos.
22

CAPTULO II

O duque observou Vanessa por um momento e em seguida aproximou-se do 
piano, dizendo:
- Suas dificuldades terminaram, senhorita. Estou disposto a ajudar seu 
pai e lhe asseguro que as maravilhosas composies dele, uma vez 
aprovadas por mim, rendero muito dinheiro.
Vanessa permaneceu imvel, de cabea baixa, enquanto lutava para conter 
as lgrimas. Pouco depois, quando ergueu os olhos para ele, fazendo 
meno de lhe dar os agradecimentos, seu corpo frgil cambaleou e, antes 
que o duque tivesse tempo para ampar-la, ela desmaiou, caindo ao cho.
Aturdido, o duque ergueu-a, consciente de que Vanessa perdera os sentidos 
no apenas devido ao cansao e  tenso nervosa, mas sobretudo porque se 
encontrava to debilitada que apenas sua fora de vontade a mantinha em 
p.
Sem perda de tempo, carregou-a pela saleta, acomodando-a confortavelmente
em um sof. Em seguida, preocupou-se em conseguir algo para comer.
Considerou, de incio, a possibilidade de chamar seu valete ou qualquer
outro criado, mas concluiu que seria um erro: alm da onda de comentrios 
que aquela situao provocaria entre os serviais, no convinha que 
ficassem sabendo o quanto era fcil algum entrar na manso sem ser 
visto.
Lembrou-se, ento, do que o mordomo lhe dissera assim que chegara em 
casa: havia uma refeio preparada para ele no estdio. Pensando nisso, o 
duque desceu apressadamente as escadas.
Como imaginara, o criado da noite estava dormindo na poltrona
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junto  porta. Passando por ele sem fazer rudo, o duque entrou no
estdio, onde encontrou um prato de sanduches de pat e uma garrafa de 
champanhe num balde de gelo.
Pegou tudo cuidadosamente e, p ante p, subiu os degraus sem que o 
criado se desse conta. Chegando ao andar superior, entrou na saleta 
ntima, encontrando a jovem ainda inconsciente.
Depositou o improvisado jantar sobre uma pequena mesa e acendeu os dois 
candelabros que ficavam em cima da lareira. Em seguida, verteu um pouco 
de champanhe numa taa e ajoelhou-se ao lado do sof, para ajudar Vanessa 
a tomar a bebida.
S ento percebeu como ela era bonita, possuindo feies marcantes e 
clios longos e escuros que contrastavam com a pele alva, de extrema 
maciez e suavidade. No deixou de notar, porm, a proeminncia dos ossos 
da face e as marcas que a privao havia deixado no rosto da jovem.
Os cabelos de Vanessa refletiam a luz dourada das velas e eram de um tom 
avermelhado que s as mulheres hngaras possuem, e que geralmente vem 
acompanhado por olhos to verdes quanto as rvores que cobrem o sop das 
montanhas.
- Vamos, Vanessa, acorde - sussurrou o duque, enquanto levava a taa aos 
lbios dela. Insistiu: - Beba um pouco e logo se sentir melhor.
Para sua agradvel surpresa, o chamado surtiu efeito, fazendo-a mover os 
lbios ligeiramente.
O duque inclinou a taa e a jovem sorveu um pouco do champanhe.
- Beba mais! - pediu ele. - Vai lhe fazer bem. Depois de tomar outro gole 
do lquido, Vanessa endireitou
o corpo e o encarou. Seus olhos no eram verdes como o duque esperava, 
mas sim muito negros, quase azulados, e refletiam toda a mgoa e o temor 
que ela sentia.
- Est tudo bem - disse ele, rapidamente. - Voc apenas desmaiou. Por 
isso precisa se alimentar. J fui buscar alguma coisa para comer - 
acrescentou, apontando para a mesinha.
- Mas primeiro tome outro gole do champanhe, que a deixar reanimada.
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O duque tentava tranquiliz-la e, entendendo as intenes sinceras dele, 
Vanessa fez como ele lhe pedira.
- No quero mais -disse pouco depois, afastando a taa com delicadeza.
- Est bem, mas  importante que coma alguma coisa antes de conversarmos.
Faa isso por seu pai.
Ao ouvir esse pedido, Vanessa estremeceu, tentando se libertar do estado 
de letargia em que se encontrava.
O duque apanhou um dos sanduches e colocou-o em sua mo. A seguir, puxou 
uma cadeira e sentou-se diante dela.
- Coma.  disso que voc est precisando. Depois falaremos sobre seu 
futuro, que ser muito diferente da situao que est vivendo agora.
Seu tom era gentil e paciente como se ele estivesse se dirigindo a uma 
criana. O duque percebia, preocupado, que Vanessa mastigava com 
dificuldade, revelando que seu organismo debilitado resistia  aceitao 
de qualquer alimento.
- No vou conseguir comer mais - disse ela, de repente.
- Mas voc precisa tentar! Seno, como ficarei sossegado quando voc 
voltar para a casa de seu pai?
Uma expresso de pnico invadiu os olhos dela.
- Meu Deus! No posso deix-lo s por muito tempo. Ele est muito... 
muito doente.
- No se preocupe, senhorita. Mandarei um dos melhores mdicos de Londres 
para examin-lo, amanh.
O duque imaginou que Vanessa fosse mostrar-se grata diante de sua oferta, 
Em vez disso, porm, ela retrucou com certa agressividade:
- No estou pedindo caridade, milorde.
- No foi essa a minha inteno! - replicou ele, ofendido.
- Como voc bem sabe, as composies de seu pai so geniais e me parece 
inacreditvel que no o tenham reconhecido at hoje.
- As pessoas que o ouviram sempre foram da mesma opinio. O problema  
que... papai nunca teve um bom empresrio. Vanessa deu um suspiro e 
continuou:
- Ele nunca se preocupou com dinheiro e as pessoas tiraram vantagem 
disso. Quando meu pai saiu da Hungria para
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tocar em Paris, os concertos dos quais ele participou foram bem
sucedidos. No entanto, quando as apresentaes terminaram, o agente
teatral fugiu com a soprano... levando todo o dinheiro. Ela fez um gesto
de desconsolo.
- Acho que mame e eu fomos muito tolas. Eu tambm era muito jovem para 
entender que ele precisava de um empresrio idneo para promov-lo. Mas 
papai ficava imensamente feliz quando tocava e, como sempre tinha 
contratos, ainda que pouco lucrativos, nunca se preocupou com o futuro.
- Sua histria  muito interessante e eu gostaria de conhecer mais 
detalhes sobre ela - disse o duque. - Vamos tomar mais um pouco de 
champanhe.
Atravessou a sala, pegou outra taa e voltou a sentar-se diante de 
Vanessa. Aps se servir da bebida, ele props:
- Vou lhe pedir para fazer um brinde comigo. Vanessa fitou-o 
interrogativamente.
- Ao futuro, Vanessa! Que o futuro lhe proporcione tudo o que sempre 
sonhou na vida!
O duque olhou-a com um sorriso nos lbios e, correspondendo s 
expectativas dele, Vanessa ergueu a taa e tomou um pequeno gole de 
champanhe.
- Quando vocs vieram para Londres? - ele quis saber.
- H dois anos. Papai pensou que conseguiria uma oportunidade para tocar 
no concerto que Vossa Graa estava promovendo no Covent Garden.
- Aquele concerto foi um sucesso e a renda, bastante alta, foi revertida 
para a construo de um hospital em que a rainha estava particularmente 
interessada.
- Ns sabamos disso. E como era um hospital para crianas, mame e eu 
escolhemos algumas lindas canes folclricas para papai tocar.
- Mas seu pai no tocou?
- No. Quando chegamos aqui, o amigo que nos informara do concerto disse 
que ficara sabendo que os intrpretes que no constavam da lista do duque 
precisariam dar uma determinada quantia para serem includos no programa.
- No me diga!
-  a pura verdade... Acredito at que papai pagaria para
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participar. Entretanto, nem ele nem o amigo dispunham de dinheiro
suficiente.
- Que absurdo! Eu no tinha absolutamente conhecimento disso.
Vanessa nada disse, mas seus olhos mostravam uma clara condenao por ele 
no ter sido mais perspicaz e percebido o que era feito em seu nome.
Relembrando os fatos, o duque compreendeu que, de certa forma, fora 
omisso. Escolhera os nmeros principais com base na fama e no talento 
indiscutveis de seus intrpretes. O resto do programa tinha sido montado 
segundo sugesto dos diretores do teatro, de empresrios e agentes. 
Entretanto, o fato de terem exigido dinheiro daqueles que almejavam fazer 
conhecer sua arte deixou-o absolutamente furioso, a ponto de decidir 
naquele instante que no permitiria que isso tornasse a acontecer.
- Depois disso, papai passou a odiar a Inglaterra - continuou Vanessa. - 
Mesmo assim, no poderamos nos dar ao luxo de ir embora. Ele tentou 
conseguir trabalho em diversos lugares mas, como no era conhecido, 
ningum se interessou. O pouco dinheiro que tnhamos, ento, logo se 
evaporou. Por fim, papai andava de teatro em teatro na esperana de uma 
oportunidade e, como o ltimo inverno foi muito rigoroso, ele comeou a 
sentir dores nas mos e acabou impossibilitado de fazer o que mais 
gostava na vida: tocar seu querido violino.
A voz de Vanessa estava trmula, e ela lutava contra as lgrimas que lhe 
subiam aos olhos.
- Posso imaginar o que isso significou para ele - disse o duque.
- Foi terrvel! Ele comeou a definhar e a mostrar-se cada vez mais 
melanclico... Mame e eu, entretanto, nada podamos fazer.
Quando um soluo escapou-lhe dos lbios, o duque tirou um leno do bolso 
e o ofereceu a ela. Vanessa aceitou-o e enxugou os olhos midos.
- Acho que foi devido  luta para economizar cada centavo que mame 
adoeceu e faleceu. As coisas aconteceram to depressa que no tivemos 
tempo de perceber o que se passava.
- Estou muito emocionado com sua histria. - disse o
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duque com sinceridade. - E imagino o quanto lhe doeu ter que relembrar
tudo isso. Gostaria que tentasse comer mais um pouco. Tenho certeza de
que ser mais fcil agora. Alm disso, acredito que esses sanduches de 
pat so muito gostosos.
- Um manjar dos deuses, perto do que papai e eu temos comido nos ltimos 
tempos - respondeu Vanessa, esforandose para esboar um sorriso, o que 
lhe valeu uma admirao ainda maior por parte do duque.
Ela pegou um sanduche, deu duas mordidas e depois continuou:
- Mame morreu logo depois do Ano-novo e eu sabia que a partir da papai 
perderia toda a razo de viver. Felizmente, um pouco antes da sua morte, 
ela o convenceu a escrever algumas de suas composies. Fiz vrias cpias 
delas, embora no tivesse o papel apropriado.
Depois de uma pausa em que ficou mastigando com o olhar perdido no fundo 
da saleta, ela prosseguiu:
- Mame e eu j tnhamos procurado todos os agentes que nos haviam 
indicado, mas nenhum deles se interessou pelas composies de papai; e a 
maioria nem mesmo permitiu que eu as executasse. Diziam apenas: "Deixe as 
partituras aqui e veremos se realmente tm valor". Mas ns sabamos que 
eles as roubariam ou simplesmente as jogariam fora.
Vanessa no falava para conquistar simpatia, apenas era fiel aos fatos. O 
duque, por sua vez, desconfiava que ela o condenava silenciosamente, 
acreditando-o cmplice de toda aquela sordidez.
Muitos dos autodenominados empresrios do meio musical usavam prticas 
desonestas e amarravam jovens artistas em contratos dos quais eles no 
tinham como escapar, cobrando grandes quantias por seus servios de 
agenciamento.
O duque tinha conhecimento disso, mas nunca se preocupara muito com tais 
questes, considerando que seria perda de tempo. Agora, entretanto, 
arrependia-se profundamente dessa atitude e imaginava quantos talentos 
haviam sido desperdiados em meio  negligncia e ao embuste.
- O que voc fez depois que sua me morreu? - indagou ele.
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- Precisei cuidar de papai, mas tambm tinha que arranjar algum dinheiro. 
Tentei vender algumas msicas... mas dessa vez os resultados foram ainda 
piores do que antes...
A maneira titubeante como Vanessa mencionou esse fato indicava que havia 
se deparado com indivduos inescrupulosos, que procuravam tirar vantagem 
de qualquer situao que envolvesse uma garota bonita, s se dispondo a 
dar alguma ajuda caso ela se submetesse a seus caprichos pessoais.
- Ento vocs foram ficando cada vez mais pobres - concluiu o duque, 
procurando mudar de assunto.
- J no tnhamos nada e, depois de vender o casaco de papai e quase 
todas as roupas de mame, percebi que precisava fazer um ltimo esforo 
para impedi-lo de morrer, no por causa da doena, mas... por pura falta 
de alimentao.
- Foi quando voc decidiu me procurar.
- Exato. Assim que fiquei sabendo do concurso, tentei inscrever uma 
msica de papai. Fui informada, porm, de que para isso teria que pagar 
vinte e cinco guinus... Ou a metade dessa quantia, caso aceitasse me 
tornar... amante do homem que exigiu o dinheiro!
A lembrana daquela cena pareceu reavivar Vanessa mais do que o prprio 
champanhe. O tom crtico voltou  sua voz e seus olhos pareciam soltar 
fascas quando continuou:
- Como Vossa Graa, que  internacionalmente respeitado como patrono da 
msica, permite que essas coisas aconteam?
- Eu no estava a par desses fatos. Sempre dediquei total ateno  
msica em si, que considero a mais bela e mais profunda expresso da 
alma.
- Mas ainda assim consente que aqueles que o representam ajam de maneira 
desleal e se comportem como verdadeiros demnios!
O duque ficou impressionado ao ver como uma pessoa de aspecto to frgil 
falava com tanta violncia. E compreendia que o que lhe dava foras para 
agir daquela maneira no era apenas a revolta pelos insultos de que fora 
vtima, mas tambm a discordncia quanto  utilizao da msica para se 
atingir fins to discutveis.
- Prometo que esse tipo de coisa no voltar a acontecer,
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pelo menos em situaes que estiverem sob meu controle garantiu ele.
- Espero que esteja dizendo a verdade, mas talvez j seja tarde demais..
para salvar a vida de papai.
- De maneira alguma! Quero dizer, o que voc tocou para mim esta noite 
absolutamente superior a qualquer outra msica que eu tenha ouvido na
audio anterior. Estou certo de que seu pai ganhar o prmio de melhor
compositor.
Vanessa permaneceu em silncio e depois de alguns instantes o duque 
perguntou:
- Sabe o valor do primeiro prmio, senhorita?
- Disseram-me que seria de mil guinus.
- Exatamente! O segundo prmio ser de quinhentos, alm de mais cinco 
outros prmios de cem guinus cada um.
- Vossa Graa acredita realmente que o trabalho de papai seja superior 
aos dos outros compositores?
- Muito melhor! Seu pai  um gnio. E tenho certeza de que esta no ser 
apenas a minha opinio, mas tambm a do grupo de msicos que julgaro, ao 
meu lado, os participantes da segunda audio do concurso.
Nervosa, Vanessa apertou as mos.
- S espero que papai esteja suficientemente bem para compreender o que 
tenho a dizer. Posso imaginar a felicidade dele... no por causa do 
dinheiro, mas por ser afinal reconhecido na Inglaterra, que, 
infelizmente, ignorou sua existncia at agora.
- Isso no acontecer mais. Mesmo que seu pai no possa tocar, voc ser 
capaz de interpretar divinamente as composies dele. No tenho dvidas 
quanto a isso, depois do que ouvi esta noite.
- Mas gostaria muito que pudesse ouvir papai tocando violino, milorde.
Vanessa deu um suspiro e continuou:
- Ele era capaz de transportar qualquer pessoa para o cu!
- Acredito. Enquanto voc tocava, tive a sensao de ver as estepes 
floridas da Hungria e a neve branca sobre o topo das montanhas.
- Vossa Graa j esteve na Hungria? - perguntou Vanessa, deixando 
transparecer um brilho de interesse no olhar.
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- Por duas vezes. E acho que foi um dos pases mais bonitos que j 
visitei.
- Nunca deveramos ter sado de l! Mas papai estava entusiasmado com a 
ideia de ir para a Frana e mame achava que lhe faria bem ser conhecido 
em outras terras.
Vanessa ficou em silncio por alguns instantes e ento acrescentou:
- J era tarde demais quando nos demos conta de que nossa deciso fora um 
completo desastre!
- Esquea isso. Esquea tudo, exceto o fato que de agora em diante seu 
pai ser aplaudido neste pas, como deveria ter sido desde o momento em 
que aqui chegou.
- Vossa Graa far realmente isso por ele? Posso acreditar que amanh no 
ter esquecido o que prometeu?
- J lhe dei minha palavra de honra! Posso ter muitos defeitos, mas 
jamais quebro uma promessa.
Vanessa olhou-o com desconfiana, como se tentasse enxergar o que lhe ia 
pela alma.
Ao lhe ver a expresso, o duque deixou escapar um sorriso divertido. Pela 
primeira vez em sua vida, uma mulher no se mostrava ansiosa para 
acreditar no que ele dizia, mesmo tratando-se de algo do interesse dela.
- Preciso ir-me para ver papai - anunciou Vanessa, de repente.
- Como pretende ir, senhorita?
- Da mesma maneira como vim: caminhando. No  muito longe.
- Onde est morando?
- Numa rua em Paddington.
O duque ergueu as sobrancelhas, preocupado. O bairro que ela mencionara, 
um dos mais perigosos de Londres, tinha uma pssima reputao.
- O aluguel l  mais barato do que em qualquer outro lugar desta cidade 
- esclareceu Vanessa, como se adivinhasse os pensamentos dele. - Depois 
que mame morreu, no pudemos nos dar ao luxo de continuar morando onde 
estvamos.
- Mas  arriscado voc ir para l sozinha - advertiu o duque.
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- No se preocupe, sei me defender. Como sabe, estou armada.
Dizendo isso, Vanessa levantou-se e pegou o revlver que deixara sobre o 
piano.
- Vou mand-la para casa em uma carruagem de aluguel
- anunciou o duque.
De incio pensara em acompanh-la, mas essa atitude poderia trazer-lhe 
complicaes. E pedir sua carruagem quela hora da noite provocaria 
tambm muito espanto.
- No quero incomod-lo mais - insistiu Vanessa. - Vossa Graa j 
prometeu tudo o que eu esperava e no pretendo lhe dar mais trabalho.
- Mandar buscar uma carruagem no ser nada trabalhoso. - Fez uma breve 
pausa antes de continuar: - Mais uma coisa, Vanessa: Vou lhe dar algum 
dinheiro para que compre o que seu pai necessita at o dia em que for 
oficialmente notificado de que  o vencedor do concurso.
- No desejo caridade, senhor duque, mas aceitarei o dinheiro sob uma 
condio.
- Qual? - indagou ele, curioso.
- Se meu pai de fato ganhar o prmio, fao questo que o dinheiro que eu 
levar agora seja deduzido da quantia que ele ir receber.
O duque encarou-a, mal podendo acreditar no que ouvia.
- Ora, no seja infantil! Voc no est em condies de ter tanto 
orgulho!
- Esse  seu ponto de vista, no o nosso! - afirmou Vanessa, parecendo 
soltar fascas pelos olhos. - Meus pais sempre foram muito orgulhosos e 
foi isso que nos manteve vivos e confiantes em ns mesmos. Esse 
sentimento  que nos fez acreditar que algum dia seria feita justia ao 
gnio de papai.
O duque a observava atnito, deixando claro que no esperava aquela 
reao por parte dela.
- O que estou lhe pedindo, milorde,  s isso: justia. Forcei-o a ouvir 
as composies de papai porque sempre tive conscincia do absurdo que 
seria um artista de valor como ele morrer no anonimato.
- Concordo plenamente e aceito sua condio. Vou lhe dar
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cinquenta guinus agora e, quando seu pai receber o prmio, voc os 
devolver.
- Quanto a isso, no tenha dvidas. A honestidade sempre foi uma virtude 
em nossa famlia.
O duque disse a si mesmo que nenhuma dama da sociedade poderia ter falado 
com maior dignidade do que aquela jovem humilde.
O vestido preto que usava mostrava claramente o quanto ela estava magra. 
Era uma roupa velha, embora o tecido fosse de qualidade e bom gosto. 
Observando-a, o duque concluiu que ela o trajava com a mesma altivez com 
que qualquer outra mulher envergaria um luxuoso vestido de baile.
No era to baixa quanto parecera sentada ao piano; embora o duque fosse 
alto, bastava que ela levantasse levemente a cabea para encar-lo.
Enquanto Vanessa se movimentava na sala, o brilho dourado das velas 
brincava em seus cabelos ruivos. Examinando-a, o duque pensou que, 
convenientemente alimentada e bem vestida, ela seria inacreditavelmente 
bela.
Como se a ideia o perturbasse, ele disse de repente:
- Espere aqui que vou buscar o dinheiro. Seria bom embrulhar os outros 
sanduches num guardanapo e lev-los para seu pai.
Vanessa hesitou por um momento, o que o fez acrescentar, quase com 
impacincia:
- As mercearias no esto abertas a esta hora da noite.
- No, claro que no - concordou ela.
Ento aproximou-se da mesa, enquanto ele ia apanhar o dinheiro.
Chegando ao quarto, o duque abriu uma gaveta da penteadeira, separou 
cinquenta guinus e voltou para a sala.
Vanessa o esperava em p. Tinha posto um xale negro que a cobria da 
cabea at abaixo da cintura.
"Ela parece mais annima agora, mas mulher alguma, seja de que idade for, 
est em segurana nas ruas  noite, principalmente no bairro de 
Paddington!", pensou o duque enquanto lhe estendia o dinheiro.
Ao perceber-lhe a relutncia em aceitar, teve certeza de que
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ela preferia no receber nada dele at que o resultado do concurso fosse 
anunciado.
Entretanto, sua hesitao durou pouco, pois logo ela pareceu se lembrar 
do pai e pegou o dinheiro depressa.
- Voc no tem bolsa, Vanessa?
- O bolso do vestido  mais seguro.
- Ainda no sei seu endereo. Vou pagar a carruagem que a levar at sua 
casa, portanto no precisa dar mais nada ao cocheiro.
- Acho que  melhor eu ir a p, milorde.
- com todo esse dinheiro? Seria uma bobagem! Qualquer ladro poderia 
imobiliz-la antes mesmo que voc tivesse tempo para intimid-lo com o 
revlver.
Sem argumentos para contestar o bom senso daquelas palavras, Vanessa 
resolveu aceitar a oferta.
O duque conduziu-a pelo corredor e, quando desciam a escada, ergueu 
propositalmente o tom da voz, certo de que desta forma acordaria o criado 
que cochilava na poltrona ao lado da porta.
- Qualquer dia destes quero lhe mostrar meus quadros. Estou certo de que 
gostar deles. Alm disso, tenho uma sala de msica especialmente 
preparada por mim.
Vanessa fitou-o, seus olhos revelando um grande espanto.
- Uma sala de msica?
- Sim, com um piano Steinway muito melhor do que o que voc tocou l em 
cima. Espero que, quando seu pai estiver melhor, possamos dar um concerto 
aqui. Creio que ele aceitar tocar para meus amigos, entre os quais se 
inclui a princesa de Gales, que com certeza gostar muito dele.
Nesse momento, o criado despertou e ergueu-se rapidamente da poltrona, 
alisando o palet.
- Alugue uma carruagem, Henry - disse o duque -, o mais depressa
possvel.
- Sim, senhor - respondeu prontamente o homem, antes de abrir a porta
principal da manso e sair correndo.
- Voc ainda no me deu seu endereo, Vanessa - lembrou o duque, assim 
que chegaram ao hall.
- Praed Street, 27. Poderia, por favor, avisar a quem for levar algum 
recado da parte de Vossa Graa que nossos aposentos
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ficam no ltimo andar? - Vanessa fez uma pausa antes de
acrescentar: - Parece um abuso pedir para subir as escadas, mas acho que, 
do contrrio, nunca o receberamos.
- No se preocupe. Farei isso pessoalmente. Vanessa olhou-o apavorada.
- Oh, no, senhor. No faa isso. Por favor... prometa-me que no far 
isso.
- Por que no, Vanessa?
Ela nada respondeu e o duque insistiu:
- Est sendo orgulhosa novamente?
- No, no  orgulho, apenas um profundo desgosto. No posso suportar que 
algum como papai seja visto numa situao dessas, quando existem pessoas 
como Vossa Graa  testa de um mundo onde ele deveria brilhar.
Mais uma vez a voz de Vanessa soou custica, e, divertido, o duque 
concluiu que ela nunca cedia.
- Prometo-lhe, Vanessa, que de agora em diante serei muito mais cuidadoso 
ao investigar as condies dos concursos e as pessoas que administraro 
esses eventos.
Como sentisse que ela ainda no estava convencida de sua sinceridade, 
acrescentou:
- E farei o possvel para localizar outros artistas que, como seu pai, 
no tiveram a chance de ser ouvidos e reconhecidos.
Nesse instante, um rudo de rodas anunciou que a carruagem havia chegado.
- Voc acredita em mim, Vanessa? - indagou o duque, parecendo muito 
ansioso.
Ela o encarou profundamente e disse:
- S o tempo dir se falou a verdade, milorde.
Mal o criado abriu a porta da manso, Vanessa caminhou at a carruagem 
parada sob o prtico.
Para completa surpresa do duque, ela no se voltou para -olh-lo, 
sentando-se no banco sem se preocupar com despedidas.
O cocheiro, que descera do veculo, olhava maravilhado para a manso 
Arkholme.
O duque tirou, ento, dois guinus do bolso do robe e entregou-os ao 
homem.
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- Leve a senhorita ao nmero vinte e sete da Praed Street. E por favor 
no lhe pea gorjeta. Voc foi muito bem pago.
O cocheiro olhou incrdulo para as moedas e sorriu.
- Obrigado, senhor! Espero que ela venha visit-lo outras noites!
O duque ficou irritado com essa insinuao. O homem julgava que Vanessa 
no passava de uma prostituta que viera para lhe proporcionar prazer e 
que, se tivesse sorte, seria convidada para voltar outras vezes.
Entretanto, aos olhos do cocheiro, aquela era a nica explicao para a 
presena da jovem na manso quela hora da noite e para o endereo que o 
duque mencionara.
Logo o velho homem tomou seu lugar na boleia da carruagem, pegou as 
rdeas e partiu.
O duque passou ainda um bom tempo parado, esperando que Vanessa lhe 
acenasse como qualquer outra mulher teria feito. No entanto, no viu mais 
sinal dela, e resolveu voltar para o quarto, enquanto o criado trancava a 
porta.
Quando entrava em sua saleta ntima para apagar as luzes, concluiu que o 
que acontecera naquela noite era absolutamente extraordinrio.
Sobre o piano, repousavam as composies cuidadosamente copiadas que 
Vanessa tocara.
O duque estava certo de que, quando as mostrasse na audio do dia 
seguinte, os jurados ficariam completamente extasiados. Apesar de serem 
homens no auge da carreira, nada do que tivessem ouvido poderia se 
comparar s composies de Sandor Szeleti.
Ao pegar as partituras, pensou que deveria ter pedido a Vanessa que as 
executasse na audio. Por que no o fizera?
De repente, percebeu tudo: estava relutante em permitir que os outros 
jurados vissem a jovem, mas preocupava-se, sobretudo, em subtra-la das 
vistas dos que haviam impedido que as msicas de seu pai fossem inscritas 
no concurso sem antes pagar-lhes o suborno.
Afinal, decidira fazer uma investigao cuidadosa sobre a denncia que 
ouvira e sabia que, quando o assunto fosse trazido  tona, o meio musical 
londrino tremeria. Queria, sobretudo, que o nome de Vanessa ficasse fora 
de toda aquela
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corrupo. A pobre moa j sofrera demais e estava  beira de um
esgotamento.
Mas no fora apenas essa preocupao que o levara a desejar que Vanessa 
permanecesse afastada dos acontecimentos: tentando ser honesto consigo 
mesmo, admitiu que a beleza da jovem o encantara e, secretamente, quisera 
guard-la somente para si.
Sentia-se como um mergulhador que acaba de encontrar uma prola rara nas 
profundezas do oceano e anseia ter tempo para admirar-lhe a beleza, antes 
de anunciar ao mundo sua descoberta.
Sorriu ao pensar nisso, mas algo mudara em seu corao. Em vez de se 
preocupar apenas com sua prpria vida, como sempre fizera antes, seu 
pensamento estava voltado para a frgil Vanessa.
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CAPITULO III

- O senhor duque ainda no desceu - anunciou o mordomo, assim que lorde
Poolbrook entrou pela porta principal da manso Arkholme.
Brooky, como todos o chamavam, era um dos melhores amigos do duque e, sem 
dvida, o mais ntimo. Ambos haviam estudado em Eton, ido para Oxford no 
mesmo ano e servido no mesmo regimento.
Entretanto, enquanto o duque era visto com certa reserva e reverncia, 
inclusive pelos homens de sua idade, Brooky tornara-se extremamente 
popular.
Alegre e sempre pronto a tirar o mximo proveito de toda e qualquer 
circunstncia, usufrua da confiana do duque, que o considerava no 
somente um companheiro com quem dividia os segredos mais ntimos, como 
tambm a pessoa que mais cooperava com ele.
Brooky estava sempre ao lado do duque, quer nas corridas de cavalos, quer 
nas festas e jantares, aos quais, por tambm ser solteiro, via-se quase 
to solicitado quanto o amigo.
Brooky possua uma beleza caracterstica dos ingleses, com cabelos loiros 
e olhos to azuis quanto o cu.
Assim que entrou na manso Arkholme, ele estendeu a cartola para o 
mordomo e comeou a conversar:
- Como vai o reumatismo, Newman? - perguntou ao criado.
- Est melhor, obrigado, milorde. O tempo quente sempre ajuda.
-  o que minha me diz - replicou Brooky, enquanto caminhava para a sala 
de jantar.
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Costumava tomar o desjejum quase que invariavelmente na companhia do 
duque, sempre que este se encontrava em Londres. Morando sozinho num 
apartamento em Half Moon Street e tendo apenas um criado para atend-lo, 
apreciava o hbito de fazer a refeio matinal na manso Arkholme, onde 
podia servir-se  vontade das delcias dispostas em dezenas de travessas 
de prata.
Um criado trouxe um bule com caf quente e colocou-o sobre a mesa, 
retirando-se a seguir, com uma leve reverncia.
Alguns momentos mais tarde o duque entrou na sala. Brooky levantou os 
olhos do prato e sorriu para o amigo.
- Voc deve ter se deitado muito tarde na noite passada para perder a 
hora. Imagino que esteve com alguma "fada encantada", caso contrrio eu o 
teria acompanhado at aqui.
O duque no respondeu, mas havia algo de estranho na expresso de seu 
rosto.
- O que houve, Lenox? - indagou o lorde.
- Por que voc acha que aconteceu alguma coisa? - retrucou o duque, 
evasivo, enquanto se servia de ovos com bacon.
- No pense que me engana - disse Brooky. - H algo em voc que o faz 
parecer diferente daquele homem que deixou lady Lawson ontem. A 
propsito, ela ficou furiosa por voc t-la rejeitado.
- Voc acreditou mesmo que eu fosse ficar por l ontem?
- perguntou Lenox, curioso.
- No pode negar que havia uma chance - replicou Brooky. - Afinal de 
contas, Eileen Lawson  muito atraente e vem tentando conquist-lo 
incansavelmente h mais de um ms. No White's, todos apostam que voc 
acabar se apaixonando por ela.
O duque franziu a testa, contrariado.
- Vamos, deixe de ser suscetvel! Voc sabe to bem quanto eu que  
impossvel esconder qualquer segredo daqueles fofoqueiros do White's e do 
Boodle's. Alm disso, voc  a pessoa mais interessante que eles tm para 
comentar.
- Eles fariam melhor se preocupando com suas prprias vidas - disse o 
duque, aborrecido.
- Claro que sim - concordou Brooky. - Mas pense como tudo seria montono 
se voc no existisse.
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As palavras irnicas do amigo fizeram com que Lenox recuperasse seu bom 
humor.
- Vai comigo ao Covent Garden esta manh, Brooky? indagou ele, mudando de 
assunto.
- Se voc quiser - respondeu Brooky com um gesto amplo. - Para ser 
franco, preferia cavalgar a ficar escutando msicas to terrveis como as 
que ouvimos ontem. Acho que nem um surdo aguentaria!
- Esta manh ser diferente - garantiu Lenox.
- Como pode ter tanta certeza? Aposto que aquele tal Littleton, ou sei l 
como se chama o seu agente, selecionou os melhores compositores para a 
primeira audio.
- Ele escolhe os participantes de acordo com a quantia que pagam - 
afirmou Lenox, cheio de revolta.
Sua voz soou to spera e amargurada que Brooky largou o garfo e a faca 
sobre a mesa e encarou-o, completamente aturdido.
- O que disse?
- Disse que descobri algo que me deixou absolutamente desgostoso e 
enfurecido - respondeu o duque. - Conto com seu apoio esta manh para 
fazer uma investigao e tomar algumas providncias que abalaro a 
estrutura do Covent Garden! Prepare-se para presenciar uma briga 
daquelas!
Brooky recostou-se na cadeira.
- timo! Pode ficar sossegado que o acompanharei. Faz tempo que no o
vejo entrar em uma batalha e sei que ningum  melhor do que voc nisso.
- No entendo o porqu de tanta alegria - estranhou, o duque.
- Pois vou lhe explicar! Voc caiu em um crculo vicioso, Lenox, e desde 
ento parece muito deprimido. Agora, a menos que eu esteja enganado, algo 
o despertou, como prova a sua expresso: "uma briga daquelas! ".
- Nunca imaginei que voc me via assim. Admira-me que no tenha me dito 
isso antes...
- E como eu poderia? Voc certamente no ficaria nada satisfeito se eu 
lhe afirmasse que o achava cada vez mais convencido e seguro de si, quase 
to frio quanto a esttua que,
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sem dvida alguma, mandaro erguer em sua homenagem, aps sua morte. O 
duque riu ao ouvir o comentrio sincero do amigo.
- Nunca o vi to eloquente, Brooky. Voc escolhe bem as palavras!
- Tenho muito a acrescentar sobre esse assunto, caso voc esteja disposto 
a escutar. Mas vamos deixar essa conversa para depois. Agora quero que me 
conte que descoberta foi essa que o deixou to irado.
Lenox tomou um gole de caf antes de comear:
- Quando acordei esta manh, cheguei a pensar que o que aconteceu ontem  
noite nesta casa no passara de um sonho. Por isso a primeira coisa que 
fiz h pouco foi entrar em minha saleta ntima e olhar sobre o piano, 
para verificar se as partituras estavam mesmo l. A msica que ouvi era 
to maravilhosa e excepcional, que a julguei fruto apenas de minha 
imaginao.
O duque ficou em silncio por alguns instantes, e Brooky o interpelou, 
ansioso:
- Uma msica? Do que est falando?
Lentamente, escolhendo as palavras com muito cuidado, o duque narrou 
detalhadamente os acontecimentos da noite anterior.
Assim que terminou seu relato, Brooky exclamou:
- No acredito!  muito mais dramtico do que qualquer pea que eu j 
tenha assistido no teatro! Bem, se for mesmo verdade, s poderia ter 
acontecido a voc.
- Por que s a mim? - indagou Lenox, intrigado.
- Porque voc atrai o imprevisto e o incomum. Lembra-se daquela vez em 
Oxford, quando... - Brooky parou subitamente de falar. - Bem, deixe para 
l. Poderemos conversar sobre isso em outra ocasio. Agora estou 
interessado em saber quais so seus planos, primeiro em relao  
corrupo no concurso, e segundo quanto  garota.
- Decidi demitir Littleton e todos os outros que receberam suborno em 
troca da inscrio dos compositores, no sem antes obrig-los a restituir 
o dinheiro dos artistas. Espero tambm arranjar um meio para contratar 
aqueles que foram dispensados.
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- Pretende que essa denncia de corrupo chegue aos
jornais?
- Prefiro que isso no acontea - afirmou Lenox, pensativo. - Por outro 
lado, para aqueles que perderam a esperana de alcanar o que Vanessa 
chama de "justia", essa seria a nica maneira de mostrar que devem 
tentar novamente, pois no precisaro mais pagar pelo privilgio de serem 
ouvidos.
- Vai ser uma tarefa difcil - ponderou Brooky. - Eu jamais seria capaz 
de supor que Littleton agisse de uma maneira to indecente, considerando 
a quantia que voc destina ao
Covent Garden.
- Pois , ele  muito bem pago para desempenhar sua funo. Entretanto, 
parece que no se contentou em receber apenas o dinheiro fruto de seu 
trabalho e, gananciosamente, passou a querer sempre mais.
Houve um silncio prolongado at que Brooky indagou:
- As canes desse tal Szeleti so realmente boas?
- Muito melhores do que voc possa imaginar - disse Lenox, entusiasmado. 
- Ele  um novo Strauss! O pblico ingls, amante da msica, simplesmente 
comear a danar, sentindo o corao leve.
- Sempre acreditei que seria preciso um terremoto para que isso 
acontecesse. Mas j que voc tem tanta certeza, acho formidvel. Afinal, 
pessoas como voc, que vo se tornando cheias de si e rabugentas ao se 
aproximarem da meia-idade, iro sentir-se rejuvenescidas e alegres.
- S mais uma palavra e no o deixarei ir comigo ao Covent Garden - 
ameaou Lenox. - Pelo que sei, voc no gostaria de perder o que ser uma 
manh bastante explosiva.
- No perderia isso por nada deste mundo - garantiu Brooky, sorrindo. - 
Se existe uma coisa que gosto de ver, meu velho,  seus olhos soltarem 
fascas e chamas sarem de
sua boca.
- Voc fala como se eu fosse um drago!
- Mas  exatamente assim que voc fica quando est entusiasmado. O 
problema  que, de uns tempos para c, acho-o cada dia mais entediado. - 
Brooky fez uma pausa. - J que fiz essa associao, chego  concluso de 
que So Jorge apareceu a voc na figura dessa jovem Vanessa.
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Ela foi, de fato, to mordaz quanto voc! Chegou a me
condenar por desconhecer o que estava acontecendo e praticamente me 
acusou de ineficincia.
- Ponto para ela - gritou o lorde. - No me esquecerei de parabeniz-la 
quando a conhecer.
Diante do silncio do duque, Brooky resolveu mudar o rumo da conversa, 
pergutando:
- O que pretende fazer pelo pai dela?
- Mandei meu cozinheiro preparar alguns pratos apropriados para pessoas 
doentes e debilitadas e mandei Carstairs levlos, o mais depressa 
possvel,  residncia dos Szeleti, acompanhados de duas garrafas de 
vinho. Agora resta o problema do mdico. Tenho a impresso de que no 
devo pedir a sir Felix Wrayton que atenda um paciente na Praed Street.
- Posso at imaginar a cara dele se voc ousasse - zombou Brooky.
- Tambm disse a Carstairs que convencesse Vanessa a se mudar com o pai 
para outro lugar, de preferncia bem longe do bairro de Paddington.
- Tem razo. Aquela regio inteira  detestvel e deveria ter sido 
moralizada h muitos anos.
- No entanto, como ela mesma afirmou, o aluguel l  mais barato - 
comentou o duque.
- Voc deu-lhe algum dinheiro?
- Claro! Vanessa, porm, s o aceitou sob a condio de que, se o pai 
ganhar o primeiro prmio no concurso, e eu garanti que ganharia, deverei 
deduzir dos mil guinus a quantia que lhe foi emprestada.
O lorde arregalou os olhos, incrdulo.
- Ela disse isso?
- De maneira decisiva e irreversvel - afirmou o duque.
- Tive a impresso de que, se no estivesse to preocupada com o pai, 
jamais aceitaria um centavo sequer de mim.
- Meu Deus! Ela  mesmo incomum. Nunca conheci uma mulher que no 
estivesse com a mo em seu bolso antes mesmo que voc lhe perguntasse o 
nome.
Era a pura verdade. Lenox lembrava-se bem do quanto costumava gastar com 
mulheres que, mesmo perdidamente apaixonadas por ele, no hesitavam em 
receber com excessiva
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satisfao as jias, os casacos de peles ou qualquer outra coisa de valor 
que lhes oferecesse.
Na realidade, elas encaravam a generosidade do duque como obrigao, uma 
vez que a fortuna dele era to grande que aquelas despesas pouco 
significavam.
Analisando melhor o comportamento delas, Lenox concluiu que em nada 
diferiam daquelas em cuja profisso estava implcito tirar o mximo 
proveito financeiro possvel de seu protetor.
- E que tal ela?  graciosa? - perguntou Brooky, de repente.
- Bonita  a palavra correta - replicou o duque. - Tem os traos
marcantes dos hngaros, a no ser pela tez muito branca, que pode,  
afinal, ser resultado da falta de alimentao.
- Hum, parece ser uma pessoa surpreendente.
- E . Quando acordei, sa para dar uma olhada no lugar por onde Vanessa 
subiu e conclu que ela deve ter pulado o muro que cerca a propriedade, 
uma vez que o porto permanece trancado.
- Acho que mesmo um assaltante experiente encontraria dificuldades para 
entrar na manso dessa maneira.
- Concordo com voc. Um homem no conseguiria se apoiar nos galhos das 
glicnias, por causa do peso. Mas Vanessa  muito leve.
- Presumo que isso se deva  falta de alimentao.
- Exatamente! Imagino que ela mal vai conseguir provar a comida que 
mandei. Sempre ouvi dizer que, quando uma pessoa  privada de alimento 
por longos perodos de tempo, acaba por perder completamente o apetite.
- Muitas das crianas desnutridas que vi pediam comida com insistncia, 
mas, quando tentavam comer, no conseguiam engolir.
Vanessa tivera muita dificuldade para comer os sanduches de pat. 
Provavelmente, seu estado de debilidade poderia ser comparado ao daquelas 
crianas de que o lorde falava.
Preocupado, o duque resolveu que, aps tomar as providncias necessrias 
no Covent Garden, iria pessoalmente at Praed Street, a fim de convencer 
Vanessa a se mudar dali, nem que para persuadi-la precisasse pression-
la.
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- Quando eu apresentar a msica de Sandor Szeleti ao mundo, ele se
transformar em um homem rico! - exclamou Lenox em voz alta.
- Ento  fundamental que ele no morra antes disso - replicou Brooky.
O duque encarou-o espantado, como se no tivesse considerado essa 
possibilidade.
- Tem razo! Muito bem, sejam quais forem as condies em que eles 
estejam vivendo, direi a Carstairs que arranje um mdico para atender o 
senhor Szeleti. Deve haver vrios na vizinhana, que ficariam muito 
satisfeitos em mandarem a conta para mim.
- Oh, sem dvida! Apenas acharo muito estranho o fato de voc ter uma 
amiga morando na Praed Street.
Lenox franziu as sobrancelhas por um momento, carrancudo, mas depois, 
notando que se tratava de uma brincadeira, deu uma sonora gargalhada.
- Se voc insinuasse isso perto de Vanessa, tenho certeza de que ela no 
hesitaria em acertar-lhe um tiro com aquele revlver. Ela no v em mim 
um homem, considerando-me apenas um patrono da msica, incapaz de levar 
adiante suas pretenses.
- Pobre Lenox! - exclamou Brooky, sorrindo. - Deve ser a primeira vez que 
algum lhe d uma vaia ao invs de aplaudi-lo incansavelmente, como 
sempre acontece.
- Se as informaes dela forem verdadeiras... Bem, se eu confirmar que 
alguns msicos foram dispensados por no disporem de meios para pagar 
algo que lhes era ilegalmente exigido, sou obrigado a admitir minha culpa 
e falta de perspiccia para perceber o que ocorria.
- Mas, escute, meu caro, j considerou a possibilidade de essa jovem 
estar mentindo para conquistar sua simpatia?
- No, tenho certeza de que Vanessa estava sendo sincera. Lenox tomou 
mais um gole de caf e levantou-se da mesa, dizendo:
- Vamos, Brooky. Sinto-me ansioso para chegar ao Covent Garden. Quero 
fazer aquele teatro tremer!
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Quando Lenox e Brooky voltaram para Park Lane, j estava quase 
anoitecendo.
O duque realmente conseguira sacudir o teatro. Aps a discusso que se 
deu, no apenas Littleton fora demitido do cargo, como tambm vrios 
outros homens que ocupavam funes subordinadas a ele saram pela ltima 
vez do Covent Garden.
Os jurados, da mesma forma que o duque, mostraram-se horrorizados ao 
descobrir o que se passava no processo de seleo para o concurso. 
Brooky, porm, tinha a leve desconfiana de que para alguns deles aquilo 
no constitua nenhuma novidade.
No entanto, uma coisa era certa: mesmo os inescrupulosos no podiam se 
dar ao luxo de perder a proteo do duque e, no plano pessoal, nenhum 
deles tinha a inteno de contrari-lo.
A dureza com que o duque repreendeu Littleton e seus colaboradores 
deixou-os plidos e trmulos. Afinal, ficariam desempregados e sem 
referncias do patro, o que os colocava em uma situao difcil.
Brooky observava com admirao a maneira firme com que Lenox lidava com o 
problema. Sem alterar o tom de voz uma nica vez, o duque falava com 
tanta convico que cada uma de suas palavras tinha a fora de uma 
chicotada.
Quando, finalmente, os demitidos deixaram a sala, Brooky e os jurados 
puderam suspirar aliviados, por se livrarem da tenso que reinara durante 
todo o tempo em que o duque se dirigira aos fraudulentos.
Apenas depois de definitivamente resolvida essa questo, o duque se 
encaminhara  sala onde os concorrentes o aguardavam, apreensivos.
Sabedores de que alguma coisa de anormal acontecia, temiam que algo os 
impedisse de terem suas composies ouvidas.
Mas o duque conversou com todos, descobrindo exatamente a quantia que 
cada um havia pago, e ordenou que o dinheiro lhes fosse devolvido 
imediatamente.
Interrogou-os depois, a fim de apurar os nomes dos compositores que 
haviam sido dispensados por no terem dinheiro suficiente para pagar o 
privilgio de serem includos na audio.
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A investigao, porm, revelou-se infrutfera; ao final, no havia
descoberto seno os nomes de dois deles.
pelo resto da manh, juntamente com os outros jurados, o duque assistiu  
apresentao dos msicos. Entretanto, continuava a procurar intimamente 
uma maneira de entrar em contato com aqueles homens injustiados.
No conseguia deixar de pensar que poderiam estar sofrendo tanto quanto 
Sandor Szeleti e sua filha, o que o impedia de prestar a devida ateno 
s apresentaes.
Por algumas vezes, acabou mesmo por deixar a deciso inteiramente a cargo 
de outros membros do jri, ao invs de dar sua opinio, como sempre 
costumava fazer.
Por volta de uma hora da tarde, todos pareciam cansados, e Lenox e Brooky 
decidiram ir ao White's Club para um almoo rpido, antes de voltarem ao 
Covent Garden para cumprirem o restante do programa.
Antes de se retirar, porm, o duque deixou instrues detalhadas e 
categricas para que, se algum compositor aparecesse, fosse bem recebido 
e convidado a se juntar aos demais.
No caminho para o White's Club, Brooky comentou:
- A nica apresentao desta manh que realmente me deixou emocionado foi 
a sua, Lenox!
- No h a menor sombra de dvida de que todos aqueles homens eram 
culpados - replicou o duque. - Calando diante das acusaes, eles 
confessaram a prpria culpa.
- Nem imagino quanto eles acumularam durante todos esses anos... Afinal, 
devem ter exigido dinheiro em muitas outras oportunidades.
E era verdade. A prpria Vanessa mencionara outras ocasies em que 
houvera corrupo e imoralidade nos concursos que o duque promovera.
- O dinheiro realmente corrompe.
O lorde sensibilizou-se com a amargura que havia na voz do amigo e, 
tentando ameniz-la, argumentou: - S quando no se tem o suficiente.
- No sei, no. Ser que existe algum que acredita possuir o suficiente? 
Dinheiro  como uma droga que gera dependncia: quanto mais se tem, mais 
se quer. Nunca conheci uma s pessoa que estivesse satisfeita com o que 
possui.
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- A no ser voc, que nunca deixou de fazer alguma coisa que realmente 
quisesse por no poder pagar por ela.
- No entanto, o que mais desejo no pode ser comprado com dinheiro.
- Mas, afinal, o que voc quer?
Arrependido de ter feito aquele comentrio, Lenox no respondeu, pois nem 
mesmo a Brooky pretendia confessar como se sentira deprimido na noite 
anterior, sem conseguir chegar a nenhuma concluso sobre o que desejava 
da vida.
Sentia-se desapontado e frustrado, mas no identificava o porqu.
Percebendo que o duque no queria falar, Brooky respeitoulhe a vontade e 
ambos permaneceram em silncio pelo resto do trajeto.
S voltaram a conversar quando chegaram ao White's Club e foram recebidos 
efusivamente por vrios amigos.
Depois do almoo voltaram ao Covent Garden, onde os compositores 
continuaram se apresentando. Ao final da tarde o corpo de jurados e o
duque concluram que apenas dois dos concorrentes tinham realmente valor,
devendo receber dinheiro suficiente para viverem com conforto at
conseguirem algum contrato.
Para encerrar o concurso, o duque chamou um dos melhores pianistas de
Londres, encarregando-o de executar as composies de Sandor Szeleti.
Assim que o rapaz sentou-se ao piano, o duque entregou-lhe as partituras 
que Vanessa havia lhe deixado na noite anterior.
- So muito diferentes das composies que ouvimos at agora, milorde - 
comentou o artista, enquanto examinava os papis.
- Estava certo de que voc teria essa opinio e creio que os outros 
cavalheiros aqui presentes concordaro conosco replicou Lenox, dando um 
sinal para que o jovem iniciasse a apresentao das peas.
Quando ele acabou de tocar as trs msicas, fez-se um silncio absoluto, 
mais eloquente do que quaisquer palavras elogiosas.
Em seguida, quase que ao mesmo tempo, todos comearam a aplaudir com 
entusiasmo.
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Maravilhoso! Esplndido! Magnfico!- repetiam sem cansar.
- Bem, cavalheiros, acho que no precisamos pensar muito para decidir quem
 o vencedor deste concurso. O que temos que resolver  que compositores
recebero os outros prmios.
Mas, apesar de sua tranquilidade aparente, o duque continuava preocupado
com a questo dos msicos que haviam sido marginalizados.
Felizmente, logo lhe ocorreu uma soluo satisfatria. Sem perder tempo, 
pediu uma entrevista aos reprteres dos vrios jornais londrinos que 
aguardavam os resultados e, numa linguagem reservada, contou-lhes que 
haviam ocorrido alguns erros no processo de seleo dos compositores e 
pediu-lhes que divulgassem sua deciso de promover outro concurso, no 
qual oferecia os mesmos prmios. Avisou-os tambm de que ele ouviria 
pessoalmente os concorrentes, desta vez no no Covent Garden, mas sim no 
salo de msica de sua manso em Park Lane. Por fim, fixou a data da 
competio para dali a duas semanas.
Como aquilo era algo que jamais acontecera antes, o duque estava 
convencido de que o evento receberia ampla cobertura por parte da 
imprensa. De fato, os reprteres mostraram-se mais interessados na 
audio que teria lugar na manso Arkholme do que no concurso que acabara 
de ocorrer no Covent Garden.
Em seguida, o duque fez questo de frisar que o vencedor, o hngaro 
Sandor Szeleti, era em sua opinio um gnio incompreendido, embora 
tivesse sido um violinista de renome em seu pas de origem.
- Acredito que descobrimos um compositor, cavalheiros, capaz de dar nova 
vida ao meio musical. Estou certo de que em pouco tempo ouviremos suas 
melodias cantadas e assobiadas por todas as pessoas de bom gosto deste 
pas - concluiu ele.
Enquanto falava, Lenox avaliou que esse comentrio deixaria Vanessa 
satisfeita, chegando mesmo a desejar ver a expresso dela no momento em 
que lesse os jornais na manh seguinte.
Ao lembrar-se, porm, que ela certamente no se daria ao
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luxo de comprar jornais, resolveu que mandaria algum levlos  Praed 
Street na manh seguinte.
Assim que as entrevistas  imprensa terminaram, Lenox e o lorde puseram-
se a caminho, de volta  manso Arkholme.
- Bem, depois de tudo o que aconteceu hoje, s posso dizer que preciso de 
uma bebida forte! - desabafou Brooky. - Por falar nisso, o que pretende 
fazer esta noite?
- No consigo me lembrar se marquei algum compromisso.
- Ah! Sim, agora me recordo. Voc tem um jantar na manso de Richmond. Eu 
mesmo aceitei o convite h uma semana e acredito que voc no o recusou.
Lenox franziu as sobrancelhas.
- Sinto-me cansado demais para divertir a duquesa esta noite. Ser que 
no podemos mandar um bilhete delicado, dizendo que tivemos um problema e 
infelizmente no compareceremos?
- Voc deve estar completamente louco! - exclamou Brooky, rindo. -  o 
tipo de deslize que ela jamais perdoaria.
- Bem, ento no h sada.
- Anime-se, tenho certeza de que uma garrafa de seu melhor champanhe  
exatamente o tnico de que ns precisamos.
- Est bem, est bem... Mas no ficarei l at tarde.
- Aposto como voc vai mudar de ideia assim que chegarmos. Os Richmond 
sempre convidam as mulheres mais bonitas de Londres para suas festas.
-  verdade - concordou Lenox, com indiferena.
- Na ltima vez que estivemos l, tive vontade de que algum fizesse um 
quadro retratando nossos bailes, sob a luz dos candelabros. Acho as 
mulheres extremamente graciosas com aquelas saias-balo!
Brooky parou de falar por um momento e depois acrescentou:
- Isso me fez lembrar de uma coisa: se sua amiga Vanessa estivesse usando 
uma saia-balo, no teria conseguido pular a janela.
-  verdade. Mas, se a usasse, estou certo de que poderia ser 
tranquilamente convidada para o baile dos Richmond.
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- Voc precisa convid-la para danar algum dia - sugeriu Brooky, 
enquanto o observava.
- Se eu a convidasse, tenho certeza de que no aceitaria. J lhe disse: 
Vanessa no v em mim um homem e sua voz treme de desprezo quando me 
dirige a palavra.
Brooky pensou em comentar que ela era bem esperta, pois conseguira com 
esse comportamento atrair a ateno do duque, muito habituado  adulao. 
Resolveu, entretanto, guardar para si o pensamento.
Pouco depois, a carruagem parava diante da manso Arkholme. Os dois 
amigos desceram e entraram no hall.
- Onde est o champanhe, Newman? - perguntou Lenox.
- Na biblioteca, milorde - respondeu o mordomo, solcito. - Deseja mais 
alguma coisa?
- Estou com fome - disse Brooky. - Voc me apressou tanto no almoo que 
no resistirei se no comer algo antes do jantar.
Ouvindo esse comentrio, o duque apressou-se em pedir ao mordomo que 
preparasse um ligeiro lanche para eles. Antes porm que este se retirasse 
para providenciar a refeio, o duque ordenou:
- Mande o sr. Carstairs falar comigo no estdio, Newman.
- Sim, milorde - respondeu o homem, com uma discreta reverncia.
Nem bem os dois amigos haviam se acomodado na biblioteca, o sr. 
Carstairs, secretrio particular do duque, entrou. Era um homem alto, de 
cabelos grisalhos e ar circunspecto.
- Bem, Carstairs, conseguiu convencer a srta. Szeleti e seu pai a se 
mudarem para um bairro mais agradvel do que o de Paddington? - indagou o 
duque, ansioso.
- No. Foi impossvel, milorde.
- Por qu?
- Quando cheguei ao nmero vinte e sete da Praed Street, a srta. Szeleti 
e seu pai no se encontravam mais l.
Lenox observou-o, sem acreditar no que ouvia. Em seguida perguntou 
asperamente:
- A que horas voc chegou l, homem?
- Pouco depois das trs e meia da tarde, milorde. O cozinheiro
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demorou um pouco para encontrar todos os alimentos necessrios
para uma pessoa doente.
- Voc perguntou pelo novo endereo?
- Sim, mas ningum na casa faz a menor ideia do paradeiro deles.
- Mas algum deve saber para onde eles foram - insistiu o duque. - A 
srta. Vanessa deve ter pago o aluguel, no?
- Sim, milorde. Falei com a proprietria da casa, uma senhora gorda que 
estava na cozinha.
- E o que ela disse?
- Disse-me que a srta. Szeleti pagou o que lhe devia e levou o pai 
consigo numa carruagem de aluguel. Parece que o velho precisou ser 
carregado pelo cocheiro e por um outro rapaz que os ajudou. Isso foi tudo 
o que a mulher soube informar.
Antes que o duque se manifestasse, Brooky interveio, tranquilizando-o:
- Devem ter se mudado para um lugar com acomodaes melhores. No se
preocupe. Vanessa entrar em contato com voc, assim que os jornais de 
amanh anunciarem que Sandor Szeleti foi o vencedor do concurso.
- Sim, claro - concordou ele.
Entretanto, tinha a estranha e desesperadora sensao de que acabara de 
perder uma coisa muito preciosa.
Vanessa, de fato, levara o pai para o lugar onde moravam quando a me 
ainda vivia. Tratava-se de uma rua melhor localizada do que a Praed 
Street, com acomodaes infinitamente mais confortveis.
A antiga senhoria, a sra. Bates, mostrou-se encantada por reencontrar 
Vanessa.
- Sempre que penso em vocs, minha querida, no me conformo com a morte 
de sua me. Ela era uma verdadeira dama!
- Todos temos nossas penas na vida - respondeu Vanessa. - Ultimamente, 
papai anda muito doente e preciso acomod-lo em um lugar confortvel, 
onde existam condies para uma recuperao mais rpida.
A mulher encarou-a um tanto desconfiada e Vanessa esclareceu:
52
Posso pagar adiantado pelo melhor quarto que a senhora
tiver.
Voc tem sorte, porque o melhor quarto da casa est
mesmo vago.
Enquanto inspecionava o cmodo, Vanessa percebeu que, embora no fosse 
mobiliado com muito gosto, nem fosse particularmente confortvel, era 
muito melhor do que o lugar sujo e mofado que ocupavam na Praed Street.
Uma janela ampla dava para o jardim, iluminando o cmodo e, apesar de a 
cama que o pai ocuparia ser estreita e velha, disporiam de carpete no 
cho e de um quartinho anexo, onde ela poderia se acomodar.
No tinha o conforto dos aposentos que haviam ocupado ao chegarem a 
Londres e nem chegava aos ps do apartamento onde haviam se hospedado em 
Paris. No entanto, tratava-se de um lugar limpo e a senhoria era 
intransigente quanto  boa conduta de seus inquilinos.
Esse ltimo aspecto, porm, no possua qualquer importncia para 
Vanessa, que, na verdade, conseguira manter um bom relacionamento com as 
prostitutas da Praed Street. Ao perceberem que ela cuidava de um homem 
doente e no seria concorrente para elas, passaram a trat-la com 
gentileza e solidariedade. Mostravam-se sempre interessadas em saber da 
sade do velho Sandor Szeleti e,  sua maneira, tentavam alegr-la, 
ajudando-a a manter acesa a esperana de dias melhores.
Vanessa partira de Paddington numa carruagem de aluguel e pedira ao 
cocheiro que, com a ajuda de um outro rapaz, transportasse seu pai do 
quarto at o veculo.
Logo pela manh, ela havia usado um dos soberanos de ouro que o duque lhe 
dera para comprar leite e carne e, assim, dispunha de troco suficiente 
para dar uma moeda para o cocheiro e outra para o rapaz, que se 
entreolharam, surpresos.
- Tem certeza de que no vai lhe fazer falta, senhorita? indagara o 
homem. - No esquea que precisa cuidar de um homem doente!
- Sei disso, mas tenho o suficiente para nos sustentar at que papai 
possa ganhar a vida com suas msicas.
- Ele  msico? Mas que beleza! - exclamou o cocheiro.
- Obrigada por ter nos ajudado.  uma pena que existam
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poucas pessoas como o senhor neste mundo - disse Vanessa, ao se despedir 
dele.
- Foi um prazer, senhorita. Mas, se me permite, acho que deveria se 
alimentar melhor. Seu rosto est muito abatido observou o homem, antes de 
subir novamente na carruagem.
Vanessa acenou para ele e correu em seguida para verificar o estado do 
pai.
Depois de finalmente terem se instalado na nova casa, a jovem insistiu em 
que ele tomasse um pouco de caldo de carne.
Como o velho no reagisse, ela o fitou apreensiva e, ao notar-lhe a 
palidez, sentiu o corao apertado pelo medo de que ele tivesse parado de 
respirar. Mas, alguns instantes depois, o pai moveu-se ligeiramente e 
Vanessa suspirou aliviada e, sentando-se ao lado dele, ofereceu-lhe um 
pouco da sopa.
- Este caldo de carne est uma delcia, papai. Tome um pouco e ver como 
vai se sentir mais forte.
Vanessa j comunicara ao velho compositor que suas msicas haviam ganhado 
o primeiro prmio no concurso do Covent Garden, patrocinado pelo duque de 
Arkholme. Tivera a impresso, entretanto, de que suas palavras haviam 
sido inteis, pois o pai mal conseguia compreend-las.
Ao acordar naquela manh, Sandor chegara a confundir Vanessa com sua 
falecida esposa.
- Sei que voc est doente, Melina, minha querida - dissera ele. - Estou 
muito... preocupado com o que vai acontecer conosco.
- Est tudo bem, papai. Acalme-se. Escute, olhe para mim, sou Vanessa.
Sandor abrira os olhos, mas parecera ver apenas o mundo dos seus sonhos, 
completamente distante da realidade.
Mesmo estando muito doente, no se podia negar que aquele homem 
conservava ainda alguma beleza. Embora os cabelos estivessem ficando cada 
vez mais grisalhos, ainda eram brilhantes e fartos, emoldurando um rosto 
de traos fortes porm harmoniosos.
- Escute, papai - recomeou Vanessa. - O senhor ganhou uma grande quantia 
com suas msicas e o duque de Arkholme considera-o um gnio.
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Sandor fechou os olhos, indiferente ao que ela dizia, o que a levou a
concluir que seria intil insistir.
De fato, as semanas de privao que tinham passado, comendo alimentos de
pssima qualidade, haviam roubado do velho Sandor Szeleti a pouca vontade
de viver que ainda conservava.
Surpreendentemente, porm, ao v-lo acordar um pouco mais tarde, Vanessa
teve a impresso de que seus esforos comeavam a surtir efeito, pois o
velho conseguia conversar de maneira mais coerente.
- Voc disse que o duque de Arkholme... gostou das minhas msicas? Ou foi
tudo fruto de minha imaginao?
- Ele disse que o senhor  um gnio, papai, merecedor dos mil guinus
destinados  melhor msica do concurso.
Por um momento os olhos de Sandor Szeleti brilharam, mas em seguida,
quase num sussurro, ele disse:
- Agora  tarde. No posso mais... tocar para sua me.
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CAPITULO IV

Durante a tarde, o estado de Sandor Szeleti piorou a olhos vistos. Quando
falava, suas palavras soavam apenas como um murmrio trmulo. Alm disso,
voltara a confundir Vanessa com a falecida esposa.
A filha, preocupada, ia constantemente  cozinha da sra. Bates para 
esquentar o caldo de carne, que lhe oferecia a intervalos curtos. 
Independente de seus esforos, porm, comeava a temer que o pior 
estivesse por vir.
Finalmente, quando o viu delirando, disse  sra. Bates:
- Preciso chamar um mdico para examinar papai. A senhora sabe se o dr. 
Urban, que assistiu minha me antes da morte, ainda est atendendo?
- Acho que sim, embora no o encontre h muito tempo - replicou a mulher. 
- Vou fazer o seguinte: pedirei a Billy que d uma chegada at a casa do 
dr. Urban e lhe pea que venha procur-la. No  muito longe.
- Sim, por favor, faa isso - pediu Vanessa, cheia de gratido.
Em seguida, subiu as escadas apressada, pensando que errara em no ter 
providenciado um mdico antes. No entanto, o que poderia ter feito, se 
no dispunha de nenhum dinheiro? Ainda que o dr. Urban cobrasse muito 
mais barato do que qualquer outro, ela no tivefa opo.
Talvez pelo fato de o velho cirurgio tambm ser estrangeiro, os pais de 
Vanessa haviam se apegado bastante a ele. Na verdade, em troca do modesto 
pagamento que recebia
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quando os visitava, o dr. Urban ficara muito mais tempo  cabeceira de 
sua me do que devia passar ao lado dos pacientes ricos.
Quando Vanessa voltou ao quarto, encontrou o pai mais calmo, embora ainda 
resmungasse baixinho.
Temendo que ele estivesse febril, colocou a mo sobre sua testa. Ao 
contrrio do que esperava, encontrou-a fria e suada. Alm disso, suas 
faces estavam extremamente plidas, deixando-a  beira do pnico.
O velho compositor tinha agora uma aparncia semelhante  de sua amada 
esposa, quando as sombras da morte comearam a rond-la.
Vanessa sentou-se na cama, ao lado do pai, e tomou-lhe as mos frias 
entre as suas.
Desejava com todas as foras que ele continuasse vivo e acreditava que a 
intensidade de seus sentimentos pudesse reanim-lo.
Os dois sempre haviam sido muito amigos e, depois da morte da me, essa 
proximidade se estreitara ainda mais, despertando nela a conscincia de 
ser a nica coisa no mundo, alm da msica, capaz de proporcionar ainda 
alguma alegria a seu pai.
"No posso deix-lo morrer", pensou ela. "O senhor ganhou o concurso e 
tudo vai mudar. Encontraremos um lugar confortvel para morar e tenho 
certeza de que, se for bem alimentado e aquecido, poder tocar novamente 
seu querido violino. "
Ainda que isso no acontecesse, o duque de Arkholme garantira que ele 
ganharia muito dinheiro com suas composies, alcanando a fama que 
sempre merecera e pela qual lutava desde que deixara seu pas de origem.
Vanessa tinha esperanas de que com isso o pai recobrasse a vontade de 
compor. Talvez ela at escrevesse todas as melodias que tocara durante 
tantos anos e que lhe vinham do fundo da alma.
- Faremos tantas coisas juntos, agora que temos dinheiro
- disse ela em voz alta. - Assistiremos a todos os concertos e, quando o 
senhor ficar famoso, ser como mame me contou que era na Hungria. Ela me 
disse que os melhores lugares do
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teatro estavam sempre  sua disposio, inclusive o camarote real, quando 
desocupado.
Enquanto falava, imaginou a si mesma usando um deslurr brante vestido de
gala, acompanhada pelo pai, igualmente bem vestido. Oh, Deus, ser que
esse sonho algum dia se realizaria" Lembrava-se das vezes em que ela e a 
me brincavam, fingindo ir  pera de Paris ou a alguma das recepes 
oferecidas nas manses do Champs-Elyses. Descreviam as roupas e os 
leques que usariam. Sonhavam com os buques de flores que seriam enviados 
pelos admiradores do pai, de onde tirariam dois botes para enfeitar o 
decote dos vestidos ou prender aos cabelos.
Elaboravam fantsticos cardpios, com pratos que despertariam o apetite 
antes de a pera comear e que seriam servidos no jantar em seguida.
Esses jogos de imaginao eram capazes de arrancar de seus pais e dela 
mesma gostosas risadas, e os trs passavam juntos horas felizes, povoadas 
de sonhos.
- Talvez o duque de Arkholme nos convide para jantar em sua casa em Park 
Lane, onde ele tem um belo salo de msica, papai - continuou Vanessa, em 
voz alta. - Depois ele promover um concerto e o senhor poder tocar para 
um timo pblico, incluindo alguns dos msicos mais famosos da 
Inglaterra. A rainha, com certeza, adorar suas canes hngaras, mais 
alegres e cheias de vida do que as composies do prprio Offenbach.
Vanessa falava pausada e ternamente, na esperana de transmitir 
serenidade ao pai. De repente, entretanto, o velho Sandor apertou-lhe os 
dedos e abriu os olhos.
Antes que a filha pudesse fazer um nico movimento para ajud-lo, ele se 
sentou na cama.
- Devagar, papai!
Percebeu, ento, que o pai tinha as vistas fixas em algo imaginrio aos 
ps da cama. Como h muito tempo no ocorria, tinha um brilho intenso nos 
olhos.
- Melina! - exclamou ele, com a voz repentinamente forte
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e rejuvenescida. - Oh, minha querida, voc nem imagina como senti sua 
falta!
Vanessa compreendeu que ele estava tendo uma viso da esposa e, antes que
pudesse esboar um nico gesto, Sandor Szeleti caiu de costas sobre o
travesseiro.
Assim que entrou na biblioteca, o duque de Arkholme encontrou Brooky 
lendo o jornal.
O amigo virou-se sorrindo, mas no momento em que viu a expresso de 
Lenox, levantou-se de um salto.
- Alguma novidade?
- Nenhuma.
- Estava lendo sua entrevista no The Times e no The Morning Post, Mesmo
que essa jovem no tenha comprado o jornal, alguma pessoa na mesma casa,
ou algum amigo, certamente o ler e ir correndo avis-la.
- Talvez sim. Mas tenho o pressentimento de que o pai dela morreu.
- Por que diz isso?
O duque no respondeu, absorvido em recordar a maneira como Vanessa lhe 
dissera que talvez fosse tarde para salvar a vida de Sandor Szeleti.
As palavras de Vanessa giravam na mente de Lenox, que inacreditavelmente 
no conseguia conciliar o sono h trs noites.
- Se eles no aparecerem, o que pretende fazer com o dinheiro? - 
perguntou o lorde, repentinamente.
- No seja ridculo! Duas pessoas no desaparecem assim, principalmente 
tendo uma boa quantia a receber.
Percebendo que o deixara irritado, Brooky procurou usar um tom de voz 
mais conciliatrio.
- Voc tem razo. Deve existir um meio de encontr-los. Se Sandor Szeleti 
est to doente quanto voc disse, Vanessa no pode t-lo levado para 
muito longe. Certamente devem estar em alguma parte do bairro de 
Paddington.
- Sim, claro. E lembro-me de que ela disse que haviam morado num lugar 
melhor antes da morte da me.
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- Ento mande algum sondar os melhores alojamentos daquela regio.
- J pensei nisso e, a esta altura, Carstairs j contratou vrios ex-
policiais para comearem a busca. S nos resta aguardar pelo resultado.
S ento o lorde se deu conta da seriedade com que o amigo encarava 
aquele estranho caso. Nunca o vira to empenhado em qualquer outra coisa 
como na soluo daquele misterioso desaparecimento.
Era extraordinrio que, depois de arriscar a vida pulando a janela para a 
saleta particular do duque, a enigmtica jovem desaparecesse como por 
encanto, contentando-se com apenas cinquenta guinus, quando havia outros 
mil  sua espera.
Como se no bastasse, o duque mandara as msicas de Sandor Szeteti para 
os editores, de modo que as partituras estavam sendo impressas e seriam 
enviadas s lojas de msica no dia seguinte.
Pensando nisso, Brooky falou:
- Uma coisa  certa: se Vanessa no ficar sabendo da vitria do pai pelos 
jornais, no momento em que as msicas de Sandor Szeleti estiverem sendo 
tocadas ou cantaroladas, ela indubitavelmente as reconhecer, ainda que 
seja apenas pelo assobio de algum garoto de rua.
- Espero que voc esteja certo.
- E os outros concorrentes? Tiveram sorte com suas msicas?
- H um editor interessado nos dois que dividiram o segundo prmio. 
Porm, acho que ele est pensando em promov-los apenas porque, como 
esto sob minha proteo, permiti que meu nome seja usado na capa das 
partituras.
Impaciente, Lenox sentou-se  escrivaninha e, depois de alguns segundos, 
comeou a bater os ns dos dedos contra a madeira, dando mostras de 
extrema inquietao.
"No h dvidas de que este no  o Lenox que eu conheo", disse o lorde 
a si mesmo. "Todo o autocontrole de meu velho amigo est ameaado pela 
tal Vanessa. "
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Se a princpio ele se entusiasmara ao notar o interesse do amigo pela 
desconhecida, agora comeava a se preocupar com a profunda depresso do 
duque.
- Quer que eu lhe sirva um drinque? - sugeriu, tentando amenizar a tenso 
do ambiente.
Como se no o escutasse, o duque permaneceu imvel, alheio a tudo. 
Relembrava os detalhes daquele estranho encontro, numa tentativa de 
descobrir uma pista que o ajudasse a resolver o complicado enigma em que 
Vanessa havia se transformado.
Nesse momento, a porta foi aberta por um criado, que entrou na biblioteca 
segurando uma bandeja de prata com um envelope.
Ainda em silncio, o duque apanhou-o, sem demonstrar qualquer interesse 
especial.
- Um garoto trouxe esta carta - explicou o criado. - Disse que era muito 
importante, devendo ser entregue a Vossa Graa pessoalmente.
com um sobressalto, Lenox endireitou o corpo na cadeira.
- Um garoto de rua? - perguntou, ansioso.
- Sim, milorde.
- Obrigado.
Nem bem o criado se retirou, o lorde aproximou-se cheio de curiosidade.
- O que  isso? De quem ?
Dando de ombros, com uma expresso ansiosa no rosto, o duque rasgou o 
envelope rapidamente. Mas quando o virou de ponta-cabea, vrias notas,
acompanhadas de dois soberanos de ouro, caram sobre a escrivaninha.
Boquiaberto, o lorde ficou olhando para o dinheiro, enquanto Lenox tirava 
do envelope um pequeno pedao de papel, onde se podiam ler apenas duas 
palavras:
"Tarde demais. "
Recusando-se a acreditar no que lia, Lenox estendeu o bilhete para 
Brooky, sem dizer uma s palavra.
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- O que significa isso? - perguntou o outro.
- No  bvio? O pai de Vanessa morreu e ela est devolvendo o que sobrou 
dos cinquenta guinus que lhe emprestei.
Aps contar o dinheiro, ele acrescentou:
- Vinte e sete libras, para ser preciso.
- No  possvel! No posso acreditar. Como ela pde fazer uma coisa 
dessas?
- Vanessa s pode ter feito isso se, depois de pagar pelo funeral do pai, 
arranjou algum emprego.
Depois dessas palavras, Lenox se levantou, atravessou a sala e foi at a 
lareira. Simplesmente no conseguia permanecer parado. Uma sensao de 
impotncia o dominava por completo.
- Desconfio que o que falta dos cinquenta guinus me sero devolvidos, 
pouco a pouco, at que a dvida esteja inteiramente quitada - comentou o 
duque.
- Por que ela faria isso? Afinal de contas, deve saber que o dinheiro que 
Sandor Szeleti ganhou no concurso agora pertence a ela.
- Vanessa est firmemente determinada a no aceitar um msero centavo 
meu.
- Por qu?
- Na certa, ela me considera responsvel pela morte de seu pai e de sua 
me!
- Mas no  possvel! Essa garota deve ser maluca!
- No... orgulhosa! - corrigiu o duque.
Ficaram novamente em silncio, cada qual com um ponto de vista diferente 
em relao ao comportamento de Vanessa.
- A nica forma que ela tem para ganhar a vida  tocando piano - disse o 
duque de repente, como se pensasse em voz alta. -  isso que precisamos 
procurar agora: um lugar onde ela possa tocar ou talvez dar aulas. O 
problema  que nem imagino por onde comear.
Embora o dr. Urban tivesse chegado tarde demais para salvar a vida de 
Sandor Szeleti, sua presena foi de inestimvel valor para Vanessa.
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- Por que no me chamou antes? - perguntou o mdico, ao constatar o 
estado de inanio do velho.
Eu no tinha como pag-lo. O senhor j havia nos ajudado tanto... quando 
mame esteve doente.
- Como pde ser to tola? Sempre tive a maior admirao por seu pai e o 
considerava uma pessoa extremamente interessante. Se tivesse me chamado, 
eu o atenderia com muito prazer, sem pensar em dinheiro.
- Obrigada... Sei que ele agora est junto de mame. Deve sentir-se 
feliz... como no ficava h muito tempo.
Ela jamais se esqueceria da alegria na voz do pai, nem da maneira ardente 
como ele falara no momento que antecedera a morte, acreditando que ia 
reencontrar sua querida esposa na eternidade.
"Isso  amor", pensou. "A verdadeira e plena felicidade, que no depende 
de dinheiro ou sucesso, mas simplesmente de estar junto da pessoa amada, 
dois coraes em um s. "
Como Vanessa almejava encontrar um amor puro e verdadeiro em sua vida! 
Sabia, entretanto, que tal felicidade era difcil de se conseguir.
Relembrando o passado, compreendeu que, apesar de todas as dificuldades e 
privaes que haviam enfrentado, seus pais tinham chegado mesmo a se 
divertir com a situao, sem jamais perder a coragem, pelo simples fato 
de estarem lado a lado.
"Jamais deveramos ter deixado a Hungria", considerou, pela milsima vez 
em sua vida. "De que adiantaria papai ser aplaudido por um bando de 
estrangeiros? Ele e mame se amavam tanto que o amor deles seria 
suficiente para compensar qualquer outra coisa do mundo. "
Felizmente, o dr. Urban providenciou tudo para o funeral, deixando-a
despreocupada, a no ser pela aflio da sra. Bates, que rezava para que
ningum da casa descobrisse que um inquilino havia morrido. Em funo
disso, o enterro foi realizado o mais rapidamente possvel.
- A morte  sempre um problema - dissera a senhoria.
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- As pessoas no gostam de alugar quartos onde algum tenha morrido, por 
julg-los mal-assombrados.
- Sinto muito, sra. Bates. No devia ter vindo procurla... - comentou 
Vanessa.
- Devia ter feito isso antes que seu pai chegasse a esse estado - 
censurou a mulher. - Duas mortes numa casa no fariam nenhum bem  minha 
reputao, portanto espero que a senhorita no comente nada com os outros 
inquilinos. Estou certa de que o doutor vai agir com absoluta discrio 
tambm.
- Eu seria incapaz de fazer qualquer coisa que a magoasse depois do tanto 
que nos ajudou - assegurou Vanessa. - Entretanto, gostaria de continuar 
usando o quarto pequeno at encontrar um emprego.
- O que pretende fazer para ganhar dinheiro?
No seria fcil encontrar trabalho e Vanessa sabia disso. Na verdade,
enquanto o caixo do pai baixava  sepultura, a jovem rezava, no por
ele, que agora estaria feliz junto da esposa, mas por ela mesma e por
sua vida.
- Ajude-me, papai, por favor, ajude-me! - repetia, emo cionada.
Como se suas preces tivessem sido atendidas imediatamente ao sair do 
cemitrio, Vanessa encontrou Evie, uma das mulheres que tambm moravam
na Praed Street.
Ela estava comeando a fazer sua ronda noturna, com o rosto muito
maquilado e um chapu de penas vermelhas sobre os cabelos ressecados, e
cumprimentou-a de modo efusivo:
- Como vai, minha querida? Voc anda sumida!
- Mudamos para outra casa - explicou Vanessa. - Meu pai... morreu... Na 
verdade, estou voltando do enterro.
- Oh, sinto muito! Sempre ouvi dizer que a morte traz azar e acho melhor 
eu ir embora para casa agora mesmo.
- Desculpe-me se a aborreci.
- No  culpa sua, meu bem. No se preocupe. E o que pretende fazer?
- Preciso arranjar um emprego.
- O que no vai ser difcil, j que  to bonita!
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Vanessa no respondeu, mas ficou muito rubra e embaraada.
- Como sou tola! Voc  uma dama, est na cara! Porm, quando se est 
passando por srias dificuldades, o nico jeito  seguir este caminho...
- A nica coisa que sei fazer direito  tocar piano - disse Vanessa, 
interrompendo o raciocnio de Evie.
- Fiquei sabendo que seu pai era msico, mas no acredito que voc tenha 
muita chance de fazer carreira no palco.
- No  isso o que pretendo - replicou Vanessa, apressada. - Mas talvez 
eu possa dar aulas ou tocar em alguma escola de dana.
- Que tima ideia! Acho que existe uma vaga dessas na casa de Kate 
Hamilton. S no sei se ela vai julg-la a pessoa indicada.
- Quem  ela? - interessou-se Vanessa.
- Nunca ouviu falar de Kate?
- No, nunca.
- Ah, como sou tonta! Claro que voc no a conheceria. Afinal, voc  uma 
dama.
- No creio que uma dama seja diferente das outras mulheres, quando tem 
fome.
O comentrio de Vanessa provocou uma gostosa gargalhada na outra, que 
concordou:
- Tem razo! Um estmago  sempre um estmago, no importa de quem seja. 
Ronca do mesmo jeito!
- Onde  esse lugar? Pode me dar mais informaes a respeito, Evie?
-  possvel que agora a vaga j tenha sido preenchida, mas no custa 
tentar. Bem, uma garota que trabalha para Kate me contou que ontem  
noite houve a maior confuso l, porque o msico ficou bbado e a 
proprietria colocou-o para fora, pedindo a uma das garotas para 
substitu-lo no piano. Entretanto, o resultado foi desastroso...
- Por qu?
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- Porque a garota no pde entreter os cavalheiros e no ganhou um 
centavo sequer, est entendendo?
- Voc acha que tenho alguma chance, se me apresentar como pianista?
- Pode ser, mas, se quer a minha opinio sincera, acho que Kate vai lhe 
oferecer um emprego diferente e no sei se voc  gostaria de danar!
O tom de Evie a fez concluir que havia algo de errado com  as
danarinas. Mas no importava; estava determinada a ganhar a vida como 
pianista.
- Ser que pode me dar o endereo dessa tal senhorita ou senhora 
Hamilton?
- Se quiser que Kate lhe d o emprego, ter que ser formal e cham-la de 
madame.
- Sem problemas. Voc sabe o endereo? - insistiu Vanessa, ainda uma vez.
- Fica na Prince's Street, no final do quarteiro Leicester. S abre para 
o pblico s nove horas da noite mas, se voc se apressar, talvez consiga
encontrar Kate antes que ela fique ocupada demais.
Vanessa hesitou por um momento, mas depois se decidiu. No desejava 
voltar para o quarto e passar a noite chorando sozinha pelo pai. Alm 
disso, estava ansiosa por garantir a sobrevivncia e pagar sua dvida com 
o duque de Arkholme.
E isso, apesar da conversa que tivera logo cedo com o dr. Urban.
- Um pouco antes de receber seu recado esta manh, estava lendo sobre o 
seu pai, no jornal - comentara o mdico.
- Sobre papai?
- Ento voc ainda no sabe! Ele ganhou os mil guinus que o duque de 
Arkholme ofereceu  melhor msica do concurso realizado no Covent Garden.
- Ento est nos jornais! - exclamou Vanessa, quase num murmrio.
- Claro que sim. Se eu soubesse que voc no havia lido, teria trazido um 
exemplar.
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- Agora no adianta mais... muito tarde para qualquer coisa...
Enquanto se dirigia ao quarteiro Leicester numa carruagem de aluguel, o 
que considerava uma grande extravagncia, Vanessa pensou que odiava o 
duque de Arkholme com tanta violncia que sua vontade era ir at ele e 
dizer-lhe, em alto e bom som, o quanto o achava desprezvel.
Como lamentava, agora, no ter aproveitado a oportunidade em que estivera 
frente a frente com ele, para falar exatamente o que pensava a seu 
respeito!
Na verdade, s no o fizera por temer que, ao ser muito agressiva, o 
duque a colocasse para fora de casa, roubando-lhe dessa forma a nica 
alternativa que lhe restava para evitar que o pai morresse de fome.
"Devolverei ao duque at o ltimo centavo!", pensou. "Depois, com a graa 
de Deus, poderei esquec-lo para sempre. "
Quando chegou ao estabelecimento de Kate Hamilton, na Prince's Street, a 
porta foi aberta por um rapaz em mangas de camisa.
- Ainda  muito cedo! - disse ele. - Kate no atende ningum a essa hora!
- Vim me candidatar  vaga de pianista - esclareceu Vanessa, rapidamente.
- Voc  pianista?
- Sim, e uma excelente pianista, posso lhe garantir. O rapaz abriu um 
pouco mais a porta.
- Kate quer um homem para a vaga. Ela no gosta de mulheres tocando...
- Sei tocar melhor do que muitos homens.
O rapaz encarou-a, desconfiado. Depois repetiu:
- J lhe disse: Kate no quer mais garotas no momento. J as tem demais!
- Estou interessada somente no piano.
Aps hesitar por alguns instantes, o rapaz abriu a porta, convidando-a 
para entrar. Depois, percorreram um longo corredor
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iluminado apenas por um lampio, que mais parecia um tnel, no fim do 
qual havia um lance de escadas.
O rapaz que a acompanhava, forte e musculoso, no estava barbeado, nem 
seus cabelos pareciam penteados.
- Agora espere aqui - pediu ele. - Vou subir e consultar Kate sobre seu 
pedido de emprego. Entretanto, se quiser minha opinio, est perdendo seu 
tempo.
Sem acrescentar mais nada, ele subiu a escada, abriu uma porta e fechou-a
em seguida, deixando-a sozinha.
Ao seu redor, havia algumas cadeiras pintadas de dourado, com o assento
de veludo vermelho. Cansada fsica e emocionalmente, Vanessa sentou-se em
uma delas, tentando imaginar se realmente estaria gastando seu tempo em
vo.
Tinha a impresso de ter esperado horas, at que a porta no topo da
escada se abriu e o rapaz apareceu novamente.
- Kate vai receb-la e que Deus lhe ajude se estiver mentindo!
Vanessa levantou-se, subiu a escada e entrou no enorme salo.
Apesar da pouca iluminao, notou que atrs de uma caixa registradora 
havia uma enorme prateleira cheia de garrafas e copos, indicando que ali 
funcionava o bar.
Na outra extremidade, uma plataforma com uma cadeira de veludo ao centro 
fazia as vezes de palco.
Vanessa no teve muito tempo para estudar o ambiente, mas chamaram-lhe a
ateno os espelhos que cobriam as paredes, multiplicando sua imagem
enquanto seguia rapidamente atrs do rapaz.
Penetraram num corredor, onde vrias portas semi-abertas davam para 
salinhas com mesas arrumadas para duas pessoas.
Pouco depois, abrindo uma porta, o rapaz anunciou:
- Aqui est ela, madame. Se no tocar bem como afirmou, no passa de uma 
grande mentirosa!
Um pouco tensa, Vanessa entrou na luxuosa sala de estar, decorada com 
cortinas de veludo e trs enormes sofs de cetim.
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No fundo da sala, estava uma mulher imensamente gorda e de aspecto 
desagradvel.
Como pouco sasse de casa, Vanessa ignorava estar na presena da famosa 
rainha da vida noturna londrina: Kate Hamilton.
Conhecida de todos, a mulher era uma atrao para visitantes estrangeiros
e j havia entretido os homens mais importantes da sociedade inglesa.
Ainda no estava trajada com o luxo que costumava ostentar  noite e o 
vestido de cetim esmeralda, que usava sobre um amplo saiote-balo, 
apresentava a bainha desfeita.
Usava uma maquilagem carregada e examinou Vanessa de cima a baixo, 
prestando ateno a cada detalhe, desde os dois belos olhos negros que 
sobressaam no rosto delicado at os cabelos brilhantes e sedosos.
- Bem, o que voc deseja? - perguntou, num tom agressivo.
- Soube que est precisando de... pianista - explicou Vanessa com voz 
suave.
-  verdade, mas quero um homem para ocupar a vaga.
- Garanto-lhe que sou capaz de tocar melhor do que a maioria dos homens.
- Isso em sua opinio, no ?
- No, na de meu pai e...
Hesitou por um momento, mas, avaliando que o duque poderia ser uma tima 
referncia naquele momento, concluiu:
- e do duque de Arkholme!
- O duque de Arkholme? Como o conheceu?
- Toquei para ele.
- Foi ele quem a mandou aqui?
- Claro que no! Inclusive, eu no gostaria que ele descobrisse que estou
aqui.
Vanessa tinha certeza de que o duque jamais frequentaria um lugar como
aquele. Desconfiava estar numa das casas de dana de que seu pai
costumava falar com desprezo, dizendo
69
que no passavam de pontos de encontro para pessoas em busca de prazer.
No sabia por que tinha tanta certeza de estar num daqueles locais, uma 
vez que tudo era muito discreto, embora houvesse algo de estranho no ar 
e, de certa forma, na aparncia de Kate.
- Como voc se chama? - perguntou a mulher, de repente.
- Vanessa.
- Apenas Vanessa?
- Sim. Esse  o nome que desejo usar - respondeu num impulso, resolvida a 
no mencionar seu sobrenome.
Como Sandor Szeleti estava sendo citado em todos os jornais, ela no 
queria mostrar qualquer ligao com ele, pois de alguma maneira esse fato 
poderia denunciar seu paradeiro ao duque de Arkholme, coisa que 
absolutamente no desejava. Ousara utilizar-se do nome dele simplesmente 
porque sentira que seria a nica forma de se impor, fazendo com que a 
mulher se dispusesse a ouvi-la tocar.
- Bem, pode ser que voc seja til, j que no tenho ningum para tocar 
esta noite. Mas, se no se sair bem, eu a colocarei para fora. Fui clara?
- Perfeitamente.
- Tem mais: caso amanh eu consiga um homem para tocar, voc poder ir 
embora! Instrumentistas mulheres so um problema, pois querem sempre 
ficar zanzando pelo salo, ao invs de permanecerem sentadas ao piano.
- Tudo o que pretendo  tocar - assegurou Vanessa.
- Voc sabe msicas novas?
- Algumas. Mas conheo melodias de compositores estrangeiros, mais 
alegres e espirituosas do que as que geralmente so tocadas aqui na 
Inglaterra.
As informaes tiveram um efeito positivo sobre a mulher, que finalmente 
afirmou:
- Muito bem, quero ouvi-la. E espero que esteja sendo sincera.
Dito isso, caminhou em direo  porta, indicando a Vanessa que a 
seguisse.
70
A caminho do salo, Kate parou por um momento e dirigiu-se aos berros a um 
homem que acabava de sair de uma das saletas.
- Se deixar os copos sujos e a cama desarrumada como ontem, mandarei voc 
embora sem lhe pagar um tosto!
- Fique sossegada, madame. Agora est tudo bem limpo assegurou ele, 
nervoso.
- Espero que sim!
Assim que ela recomeou a andar, o garom voltou correndo para a saleta, 
amedrontado pelas ameaas.
Por um momento, Vanessa prendeu a respirao, tambm um pouco temerosa. 
Entretanto, passado o impacto, levantou o queixo orgulhosamente e decidiu 
no se deixar intimidar por ningum, nem mesmo por aquela mulher rude.
Ao entrarem no salo, Vanessa percebeu que, ao lado da plataforma sobre a 
qual estava a cadeira de veludo, havia um piano de boa qualidade. Porm, 
ao percorrer os dedos sobre as teclas, constatou que o instrumento 
precisava de uma boa afinao.
Sob o olhar severo e cheio de expectativas da mulher, comeou a tocar a 
msica hngara com que acordara o duque, sentindo que isso lhe daria
coragem, alm de constituir uma homenagem ao pai.
A melodia espalhou-se pelo enorme salo vazio, fazendo-o vibrar.
Esquecendo-se de suas dificuldades e concentrando-se na recordao de 
Sandor Szeleti, ela dedilhou o instrumento com graa e leveza, como se a 
msica flusse das pontas de seus dedos.
Ento, tocou uma das mais famosas composies de Offenbach, seguida de 
uma valsa de Strauss.
S quando apoiou as mos no colo, compreendeu que seu destino 
praticamente dependeria da simples aprovao daquela criatura, sentada  
sua frente em uma cadeira de veludo.
Depois de um breve silncio, Kate anunciou:
- Vou lhe dar uma chance, mas voc precisa se comportar.
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No faz parte de seu trabalho se aproximar dos clientes, entendeu bem?
- Entendi e, como j lhe disse, quero apenas tocar - afirmou, levantando-
se do banquinho e encarando a proprietria.
Por um momento, os olhares das duas se sustentaram e Vanessa teve a 
sensao de que sua apresentao fora muito alm do esperado. No entanto, 
Kate relutava em contrat-la porque, como Evie frisara, Vanessa era uma 
dama.
- Bem, decidi lhe dar uma chance - repetiu Kate, asperamente. - Mas, se 
aparecer algum melhor, voc ter que ir embora sem criar confuses.
- Claro!
- Vou lhe pagar cinco guinus por semana e seu expediente ir das oito da 
noite at a hora que fecharmos a casa, entendido?
- Entendido... e obrigada.
Cinco guinus por semana superavam as melhores previses de Vanessa.
Feliz, ela concluiu que aquilo significaria independncia, pois lhe 
permitiria no s desfrutar de um relativo conforto, como liquidar a 
dvida com o duque de Arkholme.
- Possui outra roupa para usar? - perguntou Kate, interrompendo-lhe as 
divagaes.
- Providenciarei uma mais adequada - garantiu Vanessa.
-  bom mesmo, mas no precisa ser nada muito vistoso. Voc no est aqui 
para chamar a ateno. Deve conquistar apenas os ouvidos dos homens; os 
olhos deles so para outras garotas, certo?
- Sim... madame.
Vanessa fez uma breve pausa antes de acrescentar a ltima palavra e, como
se houvesse percebido, Kate comentou:
- No  fcil ser altiva quando se est na pobreza, e ser bem-educada no 
custa nada... Bem, guardou minhas instrues?
- Sem dvida. Farei o possvel para no a decepcionar.
- Pode ir agora - avisou Kate, levantando-se da cadeira
72
de veludo. - Esteja aqui s oito horas em ponto. Voc receber alguma 
coisa para comer durante a noite, mas nada de bebidas.
- Sim, madame.
Tentando agradar  mulher, Vanessa fez uma leve reverncia. Enquanto 
caminhava para a porta da entrada, teve a sensao de que Kate a 
observava, mas no virou para trs.
Mas quando chegou  sada, o rapaz em mangas de camisa reapareceu, 
perguntando:
- Conseguiu o lugar?
- Sim!
- timo! Mas no vai ser fcil, pode acreditar em mim. com esses cabelos 
to bonitos, encontrar dificuldades para manter os clientes a distncia 
e, caso voc se aproxime deles, Kate a mandar embora. Isto  to certo 
como dois e dois so quatro!
- Ela me advertiu quanto a isso.
- Bem, ento no se esquea: se tiver qualquer problema com os homens, 
basta me procurar. Sei lidar com eles, sejam prncipes ou plebeus.
- Muito obrigada - respondeu, comovida pela sbita gentileza.
Ele sorriu satisfeito, abrindo a porta para Vanessa, que saiu apressada, 
 procura de uma loja onde pudesse comprar um vestido de gala barato.
Exatamente s oito horas da noite, Vanessa estava de volta  casa noturna 
de Kate Hamilton.
O salo apresentava um aspecto muito diferente, resplandecendo com os 
lustres acesos e os espelhos que multiplicavam inmeras vezes a imagem 
das garotas que se enfeitavam diante deles.
Entre as centenas de sales existentes em Londres, o de Kate tornara-se 
famoso por dispor das garotas mais bonitas e atraentes, capazes de 
agradar aos homens de qualquer classe social.
Antes de adquirir o salo, Kate comeara sua carreira danando
73
o poses plastiques, uma espcie de bailado lento, de movimentos
sensuais, que constitura uma das atraes mais populares h vinte anos.
Como era inteligente e esperta, no levou muito tempo para aprender o que 
mais atraa tanto os aristocratas jovens e ricos, quanto os simplrios 
que vinham do campo com muito dinheiro mas pouco conhecimento.
Gradativamente, seu salo foi se tornando o mais exclusivo, caro e, com 
certeza, o mais bonito de Londres.
Para Vanessa, o lugar parecia fantstico, indo alm de qualquer coisa que 
j tivesse imaginado.
As "garotas" mostravam-se encantadoras com seus lindos vestidos e os 
cabelos muito bem arrumados. Os dois funcionrios, um dos quais era o 
rapaz que a recebera, Tom, estavam muito elegantes em vistosos
uniformes. Diante de todo aquele brilho, Vanessa levou algum tempo at
perceber como as vozes das garotas soavam vulgares e como alguns clientes 
mal conseguiam se equilibrar direito.
Aos poucos, ela descobriu tambm que as "salas de refeio", divididas ao 
meio, eram um recanto agradvel para duas pessoas jantarem. Entretanto, 
quando a cortina se abria, revelava-se uma cama de casal coberta por uma 
colcha de rendas.
Naquela primeira noite, porm, sua nica preocupao se resumia em fazer 
as pessoas danarem incessantemente ao som de melodias alegres.
Por isso, esquecendo-se de onde estava, deixou-se levar pelas msicas do 
pai at um mundo onde s existiam estepes floridas e picos de montanhas 
cobertos de neve.
J eram quase cinco horas da manh quando, de repente, Vanessa se sentiu 
to cansada que teve medo de desmaiar. Tocara durante muitas horas, com 
apenas dois breves intervalos, e seu corpo inteiro se ressentia, 
extenuado.
Ao levantar-se, um pouco tonta, perguntou a si mesma se conseguiria 
voltar para casa. Nesse momento, Kate aproximou-se, anunciando:
- Voc conseguiu faz-los danar, portanto, espero-a amanh
74
s oito em ponto. Decidi deix-la como pianista por mais algum
tempo.
- Obrigada... madame - foi tudo o que Vanessa conseguiu dizer.
Mas no momento em que se aproximava da porta do salo, Tom postou-se ao
seu lado, elogiando-a:
- Voc esteve magnfica! As pessoas comentavam que voc tocou as melhores
msicas que j tinham escutado na vida!
Vanessa, entretanto, sentia-se exausta demais at para agradecer-lhe.
Percebendo seu estado, o rapaz prontificou-se a ajud-la:
- Vou buscar uma carruagem de aluguel para voc. Trate de dormir at a 
hora de voltar para c amanh  noite. No se preocupe: Kate conseguiu 
uma pianista de primeira e sabe muito bem disso!
Vanessa estava to fraca que essa simples demonstrao de amizade
despertou-lhe uma incrvel vontade de chorar.
Depois de ajud-la a subir na carruagem e informar seu endereo ao 
cocheiro, Tom disse:
- Siga os meus conselhos e suas preocupaes terminaro!
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CAPITULO V

Lucy, uma garota muito bonita, foi at o piano onde Vanessa estava
tocando.
- Nibs quer ouvir uma polca.
- Outra vez?
- No questione, o cliente sempre tem razo. Olhe o que ele mandou para 
voc.
Dizendo isso, Lucy colocou meio soberano de ouro sobre uma das 
extremidades do teclado. Vanessa olhou para o dinheiro, sem entender bem 
do que se tratava e, em seguida, comeou a tocar a msica pedida.
De fato, Vanessa ignorava que, quando um frequentador da casa de Kate 
Hamilton pedia uma msica, esperava-se que pagasse por ela. Na verdade, 
tudo ali era pago  parte.
Assim, naquela primeira noite, Vanessa foi embora sem pegar as vrias 
moedas deixadas sobre o piano ou nos cantos do teclado.
Na noite seguinte, Tom lhe disse:
- Aqui est... este dinheiro  seu. No v esquec-lo outra vez.
E colocou as moedas nas mos de Vanessa, que o encarava, confusa.
- Por que devo receber esse dinheiro?
- Quando voc atende ao pedido de um cavalheiro, ele deve pagar por esse 
privilgio.
- Mas... no posso aceitar isso.
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- Se no quiser aceit-lo, pode ter certeza de que um dos garons o 
pegar com muita satisfao. Eles esto sempre interessados em algum 
dinheirinho extra.
Vanessa hesitou, revoltada contra a ideia de receber gorjetas, como se 
fosse uma criada.
Depois de refletir por alguns momentos, entretanto, concluiu que se 
comeasse a juntar aquele dinheiro teria condies de pagar muito mais 
depressa o que devia ao duque de Arkholme, ficando livre para sempre 
daquele compromisso.
Mesmo assim, permaneceu alguns instantes em silncio, antes de dizer a 
Tom:
- Obrigada. Como est vendo, no sei nada sobre o que acontece por aqui.
- No se preocupe, com o tempo voc aprender!
E, de fato, ela aprendeu muito nas noites que se seguiram.
A princpio, ficava tmida e cansada demais para prestar ateno em 
qualquer outra coisa que no fosse o piano. Depois, aos poucos, foi 
descobrindo os aspectos pitorescos do lugar.
Dois funcionrios elegantemente uniformizados examinavam todas as pessoas 
que chegavam, atravs de olhos mgicos instalados na porta. S eram 
admitidos no recinto os cavalheiros j conhecidos da casa; estranhos s 
entravam se fossem apresentados por algum de confiana.
No salo havia mesas e cadeiras em volta da pista de danas, onde os 
recm-chegados se sentavam. Sobre o palco, ao redor de Kate, que parecia 
enorme num vestido curto, ficavam vrias jovens atraentes, disponveis 
para divertir qualquer homem que chegasse desacompanhado.
O pblico que frequentava a casa no se compunha somente de aristocratas 
vindos diretamente dos selecionados clubes de St. James, mas tambm de 
militares, profissionais liberais, estudantes e jovens fazendeiros de 
famlias nobres, que eram os que mais depressa ficavam sem dinheiro.
Qualquer pessoa que fosse quele salo gastaria no mnimo seis guinus, 
de modo que nenhuma outra casa noturna de Londres possua uma clientela 
to seleta.
Assim que perceberam que Vanessa no tinha a menor inteno
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de competir com elas, as -garotas passaram a trat-la com
gentileza e amizade.
Contavam-lhe fatos interessantes que haviam se passado naquele salo, 
como uma vez, alguns anos antes, em que o rei do Sio mandara trs 
embaixadores em visita oficial  rainha da Inglaterra.
O governo britnico os instalara no requintado Claridge Hotel e lhes
mostrara todos os lugares interessantes do ponto de vista histrico. No
entanto, eles logo se sentiram entediados e acabaram sendo levados at o 
salo de Kate Hamilton.
A histria de como o diplomata-chefe do Sio mandara servir champanhe a 
todos e a enorme quantia que gastara na noitada deram a Vanessa a 
sensao de estar ouvindo um conto de fadas.
Quando se sentia segura e olhava  sua volta, ela encontrava o salo 
cheio de homens bonitos, trajando ternos elegantes, que ficavam 
conversando ou danando com as mulheres maquiladas e vestidas com 
extravagncia.
Vanessa sabia muito bem que sua me ficaria escandalizada se vivesse para 
v-la trabalhando num lugar como aquele.
Ao mesmo tempo, como Kate gostava de ouvi-la tocar e estava firmemente 
resolvida a no deix-la sair do piano, sentiase protegida.
Se algum homem tentasse puxar conversa com ela, a dona da casa, postada
em seu trono de veludo, tratava de afast-lo de maneira embaraosa e
intimidante.
- Pare com isso, senhor! - gritara ela, certa vez, para um cavalheiro que 
tentava atrair a ateno de Vanessa. - Deixe a pianista em paz. Ela est 
aqui para tocar e no para diverti-lo.
No final da semana, para sua surpresa, Vanessa constatou que, alm do 
salrio, conseguira juntar quase dez libras em gorjetas.
"Isto significa que logo poderei mandar ao duque de Arkholme o dinheiro 
que gastei com o enterro de papai e com o vestido que comprei", pensou, 
feliz e aliviada.
Vanessa descobrira uma loja que vendia roupas a bom preo. Embora a 
maioria dos vestidos fosse muito extravagante,
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conseguiu encontrar alguns mais discretos e de muito bom gosto.
A princpio pensara em usar preto. Entretanto, como possua a pele alva e 
os cabelos ruivos, acabaria chamando mais a ateno, o que seria um erro.
Assim, escolhera um vestido num tom azul claro, com um saiote-balo no 
muito amplo, o corpete drapeado e o decote discreto.
Era impossvel comprar um vestido sem um saiote-balo e, apesar do seu 
medo inicial, compreendeu que, para as pessoas que frequentavam o salo 
de Kate Hamilton, estranho seria se no usasse o que estava na moda.
Vanessa escovava os cabelos e puxava-os para trs, prendendo-os num coque 
firme na nuca, evitando assim os cachos e penteados mais sofisticados das 
outras garotas.
No entanto, pelo fato de ser to simples e ao mesmo tempo to bonita, os 
homens no conseguiam deixar de olh-la e admir-la.
Os cavalheiros que iam ao estabelecimento de Kate conheciam as regras a 
serem seguidas e sabiam que, se as desrespeitassem, seriam levados 
imediatamente para a porta da sada por Tom ou outro leo-de-chcara, to 
alto e forte quanto ele.
Uma coisa extremamente gratificante para Vanessa e que a ajudava a 
economizar era que Kate oferecia comida de excelente qualidade a seus 
empregados.
Enfim, a partir do momento em que foi contratada como pianista, a vida de 
Vanessa mudou completamente.
Como nunca chegava em casa antes das cinco da manh, dormia 
ininterruptamente no quartinho da casa da sra. Bates at a uma da tarde, 
e s vezes at mais tarde.
A sra. Bates gostava de Vanessa e lhe permitia usar a cozinha que ficava 
no trreo. Era um cmodo limpo e bem cuidado, ao contrrio da que havia 
na casa da Praed Street, de forma que a motivou a se alimentar 
convenientemente, mesmo porque, se no o fizesse, acabaria com um 
esgotamento nervoso.
De incio, foi at difcil engolir os alimentos, pois havia se 
desacostumado a comer regularmente. Sua juventude, porm,
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favoreceu-lhe uma rpida recuperao e logo passou a se sentir melhor do 
que h meses.
Se chegasse  casa de Kate s oito horas em ponto, era permitido que 
jantasse num pequeno compartimento da cozinha junto com as outras 
garotas.
Vanessa percebeu que as jovens chegavam usando roupas comuns, pois 
deixavam os vestidos de noite na casa de Kate garantindo que no se 
amassassem ou estragassem no caminho de ida e volta para casa.
s vezes, acontecia de um cavalheiro levar uma garota para fazer-lhe 
companhia, mas era obrigado a pagar caro por esse privilgio. Na verdade, 
Kate no encorajava essa prtica e sempre perguntava, com seu tom de voz 
agressivo, se o homem no sabia para o que serviam as "saletas de 
refeio" do andar superior.
Antes das nove da noite, as garotas ainda no estavam com a maquilagem 
carregada que usavam e Vanessa via como algumas delas eram bonitas.
- Se voc quiser comprar outro vestido, sei de um lugar que vende roupas 
usadas muito elegantes, que pertenceram s damas mais distintas da alta 
sociedade - disse uma garota, gentilmente, a Vanessa.
- Elas vendem os vestidos, quando no querem mais uslos?
- Elas no, sua boba! So as criadas que vendem.  um jeito de 
conseguirem um dinheirinho extra.
Vanessa nunca imaginara que existiam lojas desse tipo e, como tinha 
vergonha de trabalhar mal vestida, resolveu acatar a sugesto.
Ao chegar  loja, mal pde acreditar no que via: vestidos luxuosos e 
elegantes de todos os tipos e modelos deixados de lado por damas que 
tinham demais e depressa se cansavam das coisas.
Alguns eram muito caros mas, por uma pequena quantia, ela conseguiu 
comprar um vestido com saiote-balo no muito exagerado, que parecia ter
sido feito de encomenda, e que fazia conjunto com uma jaqueta e um chapu
delicado.
80
Mesmo tendo feito aquela despesa, ainda lhe sobraria dinheiro suficiente
para enviar ao duque de Arkholme quando recebesse o salrio, no final da
semana.
Daquela vez, faria exatamente o mesmo que j fizera antes: pediria a um 
garoto de rua que entregasse o envelope na manso Arkholme.
Tentou imaginar como o duque reagiria ao receber seu dinheiro de volta. 
Tinha quase certeza de que ele daria boas gargalhadas por ela ser to 
orgulhosa.
Quando pensava em todo o luxo que vira na manso, compreendia que os 
minguados guinus que mandava no eram para ele mais do que uma gota 
d'gua no oceano.
Mesmo assim, estava certa de que o duque entendia que sua atitude tinha 
como objetivo mostrar-lhe que o considerava responsvel pela morte de 
seus pais.
"Eu o odeio! Eu o odeio!", pensou exasperada, deixando que a violncia de 
seus sentimentos se refletisse nas teclas do piano, onde bateu com tanta 
violncia que alguns dos clientes se voltaram, espantados.
Foi quando os fitou, embaraada por deixar que suas emoes se 
sobrepusessem  msica, que Vanessa avistou o duque de Arkholme, que 
entrava no salo acompanhado por outro rapaz quase to elegante quanto 
ele prprio.
O duque parou a um canto da sala e ficou olhando  sua volta, enquanto 
ela virava a cabea rapidamente, tentando imaginar um meio de no ser 
vista.
Lenox e seu amigo Brooky tinham passado mais uma noite percorrendo as 
casas noturnas londrinas onde sabiam haver msica.
Esses lugares haviam se tornado to indispensveis e importantes na vida 
da cidade, que Brooky comentara que no seria de admirar que, depois de 
passar uma semana inteira em Londres, um homem ficasse sem um tosto no 
bolso.
Depois de terem visitado algumas casas de baixa categoria, nas quais o 
duque tinha certeza de que nenhuma mulher com um mnimo de decncia 
entraria, Brooky disse:
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- Oh, pelo amor de Deus, Lenox, vamos voltar! J estou farto do cheiro e
do barulho desses antros. Quer minha opinio? Se Vanessa  de fato como
voc descreve, no se arriscaria a colocar o p num lugar desses.
- Concordo - declarou Lenox. - Mas, onde mais ela pode estar? De que 
outra maneira ela poderia garantir seu sustento?
Ele j instrura o sr. Carstairs a entrar em contato com todas as 
academias de bale e todos os professores de dana da cidade, a fim de 
descobrir se alguma jovem com as caractersticas de Vanessa aparecera por 
l. Essas investigaes, todavia, provaram-se inteis.
Numa conversa com Brooky, o duque afastou a ideia de Vanessa estar 
trabalhando num teatro:
- No conheo nenhuma casa de espetculos que contrate mulheres para a 
orquestra - disse ele.
Como o amigo ficasse em silncio, Lenox seguiu o curso de seus 
pensamentos:
- Dessa forma, sobram apenas as casas de dana. A nica coisa que temos a 
fazer  verificar se ela no est em uma delas.
-  uma sina pior do que a morte! - reclamou Brooky, torcendo o nariz.
Lenox, no entanto, no lhe deu ouvidos.
Assim, os dois amigos passaram a visitar algumas das centenas de casas 
noturnas de Londres, que atraam qualquer homem que estivesse em busca de 
diverso e tivesse dinheiro suficiente para pagar por isso.
O Argyll Rooms era o mais festejado desses lugares e tinha uma orquestra 
excelente, composta, entretanto, exclusivamente de homens.
No comeo, Brooky achou aquela investigao bastante divertida.
Por cinco shillings comprou um pequeno livro de bolso intitulado "Guia 
completo da noite londrina", que indicava os locais de diverso 
existentes na cidade.
Brooky deu muita risada ao ler trechos do livrinho para Lenox,
82
mas constatou, surpreso, que o amigo no estava achando aquilo nada
engraado.
Na verdade,  medida que o tempo passava ele percebia, perplexo, que 
Lenox no s levava aquela busca muito a srio, como tambm se sentia 
apreensivo e amargurado ante a possibilidade de no ser bem-sucedido.
Mesmo compreendendo o envolvimento do duque com as msicas de Sandor 
Szeleti, que j comeavam a ser tocadas nas lojas de msica, causando 
sensao, Brooky no conseguia compreender o porqu do comportamento do 
amigo, a tal ponto preocupado com localizar a jovem que parecia ter 
perdido o interesse por tudo o mais.
J que se tratava de uma situao especial, Brooky acabou cedendo ao 
capricho do duque, no fazendo questo de sugerir lugares onde fosse 
possvel encontr-la.
Aps constatarem que a maioria dos clubes possua orquestras compostas 
exclusivamente por homens, passaram a visitar lugares mais modestos. 
Alguns eram to vulgares que Lenox apenas entrava para uma rpida olhada 
e saa em seguida.
- No podemos continuar fazendo isso pelo resto da vida!
- protestou Brooky quando, depois do jantar na manso Arkholme, ficou 
sabendo que uma carruagem fechada j os esperava sob o prtico, para 
prosseguirem na busca.
- Se no quiser ir comigo, irei sozinho - replicou o duque, levantando-se 
da mesa.
- Claro que irei com voc, Lenox. Mas estou pensando em lugares mais 
divertidos do que os que visitamos ontem  noite.
- Hoje de manh lembrei que ainda no fomos ao Mott's. Dizem que o 
pessoal que o frequenta  ainda mais selecionado do que o do Argyll ou do 
Holborn.
- No na opinio de algumas pessoas. Foi no Mott's que Hastings apagou as 
luzes e soltou duzentos ratos esfomeados na pista de danas!
O duque de Arkholme riu, lembrando-se do escndalo provocado pela atitude 
do jovem marqus.
- Bem, ele no faria isso duas vezes, portanto, vamos comear
83
pelo Mott's. Imagino que a orquestra de l seja bastante numerosa.
Mas a ida ao Mott's e a muitas outras casas noturnas resultou intil.
Brooky j se mostrava cansado e impaciente, quando Lenox disse, de 
repente:
- Sabe onde ainda no fomos? Na casa de Kate Hamilton.
- Nem precisa perder tempo. Kate tem um pianista muito bom, um homem. 
Estive l h trs semanas e constatei que ele tocava realmente muito bem.
Entretanto, o duque de Arkholme j havia resolvido passar pelo local e 
indicou o caminho ao cocheiro. Quando a carruagem estacionou na Prince's 
Street, Brooky reclamou, mas seguiu o amigo, parando na frente da porta 
para ser examinado atravs do olho mgico.
Tom deu apenas uma rpida olhada na figura alta do outro lado da porta e 
abriu-a, imediatamente.
- Boa noite, milorde.  um prazer t-lo conosco. H muito o senhor no 
nos visitava.
Antes que Lenox pudesse responder, Tom fez uma leve reverncia para
Brooky.
- Boa noite, senhor.  sempre bom v-lo aqui!
Tom percorreu o corredor  frente deles, subiu a escada e abriu a porta 
do salo.
L dentro havia o murmrio habitual de vozes e risadas. De repente, o 
teclado do piano foi tocado com mais fora e, surpresas, as pessoas se 
voltaram para ver o que estava acontecendo.
O duque seguiu-lhes o olhar e descobriu que sua busca havia terminado.
Entretanto, era inteligente o bastante para no ir direto ao piano 
conversar com Vanessa.
Vrios homens presentes na sala acenaram ou sorriram para ele, assim como 
Kate, que tambm notara sua presena e estava encantada.
Mas Lenox tinha absoluta certeza de que Vanessa teria uma reao 
completamente diferente.
84
O fato de no ter entrado em contato com ele depois que a vitria de seu
pai no concurso fora publicada nos jornais mostrava claramente que ela
pretendia evit-lo. Por isso, a ltima coisa que gostaria de fazer seria
provocar uma cena ou causarlhe qualquer espcie de problema.
Assim, o duque dirigiu-se para o balco, ficando de costas para o palco. 
Esperava que Vanessa acreditasse que ele no a havia visto.
O bar tinha uma enorme variedade de bebidas, oferecendo coquetis que 
tinham sido inventados nos Estados Unidos e que faziam muito sucesso 
desde que Kate passara a prepar-los.
Eram drinques exticos, com nomes estranhos, mas o duque limitou-se a 
pedir uma garrafa do melhor champanhe. Quando sua taa e a de Brooky j 
estavam servidas, deu ordens para que o garom levasse uma garrafa 
idntica at Kate, com seus cumprimentos.
Aquele procedimento era to comum que o garom atendeu imediatamente. 
Quando Lenox virou-se para ela, Kate ergueu a taa acima da cabea e 
bebeu um gole em sua homenagem.
O duque retribuiu o gesto e depois voltou para o salo, seguido por 
Brooky.
Vanessa suspirou aliviada ao v-los se afastarem.
"Ele no me viu", pensou, mais tranquila.
Sem querer, Vanessa comeou a tocar a msica com que acordara o duque, 
depois de pular a janela de sua casa noites antes.
Depois das polcas e das canes comuns, aquela melodia parecia ter o 
esplendor do champanhe ou o brilho intenso do sol refletindo na neve.
Por um momento, todos continuaram conversando, rindo e bebendo no salo.
Pouco a pouco, entretanto, as pessoas foram se calando para ouvir o
piano.
Quando Vanessa terminou, fez-se um momento de silncio absoluto, at que 
todos comearam a aplaudir, comovidos.
Ela estava to feliz por ter passado despercebida pelo duque de Arkholme 
que seus dedos pareciam voar sobre o teclado. Envolveu-se tanto com a 
msica que ficou surpresa quando,
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uma hora mais tarde, percebeu que o salo se esvaziara e que os ltimos 
clientes estavam sendo conduzidos para fora por Tom e seu companheiro.
Vanessa levantou-se e fechou a tampa do piano, depois de pegar as moedas
que tinham lhe dado no decorrer da noite.
Recebera mais dinheiro do que normalmente e, encantada, calculou que 
teria quase dez guinus para mandar ao duque no dia seguinte.
"Talvez eu consiga guardar mais dinheiro a semana que vem", pensou 
satisfeita.
S quando colocou a capa em volta dos ombros foi que percebeu o quanto 
estava cansada.
Kate, coberta de jias e usando um belo vestido com saiabalo, despediu-
se dela na porta.
- Boa noite, Vanessa. Voc tocou muito bem, mas acho melhor comprar um
vestido novo. Estou cansada de v-la com esse.
- Outro vestido... madame?
Vanessa teve a sensao de que a patroa apenas tentava encontrar algum 
defeito para evitar que ela se tornasse pretensiosa, pois havia sido 
muito elogiada. Alm disso, no estava com a menor disposio para gastar 
mais dinheiro em roupas.
- Quero que todos os funcionrios do estabelecimento estejam sempre 
elegantes - advertiu Kate. - No uso um vestido duas noites seguidas e 
espero que voc tambm faa o mesmo.
Vanessa ainda pensou em argumentar que suas funes eram diferentes, mas 
concluiu a tempo que seria estupidez deix-la aborrecida e se arriscar a 
perder o emprego.
- Farei o que puder para comprar outro vestido amanh, madame - 
respondeu, saindo em seguida do salo vazio, onde os garons apagavam os 
lampies.
Tom,  sua espera, ao lado da porta, informou:
- A carruagem est ali na frente.
- Obrigada. Estou to cansada que no conseguiria dar mais do que dois 
passos.
- No precisa fazer isso.
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Tom abriu a porta e Vanessa, sentindo-se um pouco amortecida, deixou-se 
conduzir pela calada at a carruagem parada no outro lado da rua.
Sentando-se no banco traseiro, Vanessa soltou uma exclamao de medo ao 
perceber que havia uma pessoa a seu lado.
- No se assuste! Sou eu - disse o duque de Arkholme, impassvel.
- O que Vossa Graa est fazendo aqui? Pensei que Tom tivesse chamado uma
carruagem de aluguel.
- Eu disse a ele que a levaria para casa. Passei dias difceis tentando 
encontr-la.
- Por que queria... me encontrar?
Vanessa estava to surpresa que no conseguia pensar em nada, a no ser 
que a simples presena do duque parecia dominar todo o pequeno espao da 
carruagem.
"Como fui boba! Como pude acreditar que ele no tinha me visto no 
salo?", pensou ela.
- Por que tomou uma atitude to absurda, desaparecendo desse jeito, 
quando sabia que finalmente a msica de seu pai estava sendo aplaudida 
por todos?
- Meu pai... morreu.
- Imaginei que isso tivesse acontecido... Sinto muito, Vanessa. 
Compreendo como voc deve estar triste.
Vanessa permaneceu em silncio e, depois de alguns momentos, o duque 
continuou:
- Ele ficaria feliz em saber que seu talento agora  reconhecido por 
todos os que ouvem aquelas trs composies maravilhosas que voc deixou 
comigo.
- Agora  tarde demais.
- Tarde demais para qu? Voc sabe muito bem que a msica  imortal e no 
acredito que seu pai gostasse que seu legado  humanidade morresse com 
ele.
Vanessa continuou imvel, olhando para a frente, enquanto o duque 
observava-lhe o perfil delicado, iluminado pela luz plida que comeava 
a clarear o cu.
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- Acho que eu estava errada. Papai gostaria que suas msicas tornassem
as pessoas felizes e... as inspirasse.
- Claro que sim! No  possvel que voc acredite que a morte possa ter
destrudo a obra que ele deixou para o mundo.
As palavras do duque a surpreenderam. Ela virou a cabea e fitou-o com
seus grandes olhos.
-  essa realmente a sua opinio, milorde?
- O talento de seu pai  imortal! Como pianista, voc sabe que o que 
estou dizendo  a mais pura verdade.
Vanessa entrelaou as mos como se fosse rezar. Em seguida, parecendo um 
tanto hesitante e com o olhar cheio de arrependimento, murmurou:
- Estive to ocupada nesses ltimos tempos odiando Vossa Graa que no 
tive tempo de pensar que meu pai continuar vivo por toda a eternidade,
em sua obra.
- Sei muito bem que voc me odiou. Por isso fiz todo o possvel para
acabar com a corrupo que tomava conta do meio artstico londrino. Tenha
certeza de que, enquanto eu tiver alguma influncia, coisas como aquelas 
nunca mais acontecero.
Vanessa ficou em silncio, mas Lenox imaginou ter visto um brilho sbito 
em seus olhos.
- Programei outra audio para novos compositores, que acontecer daqui a 
dez dias. Espero que os artistas que foram dispensados no primeiro 
concurso se inscrevam novamente, pois esta audio ser no meu salo de 
msica em Park Lane.
Vanessa prendeu a respirao. Compreendia que aquela era a forma que 
Lenox encontrara para garantir que os compositores no precisassem pagar 
pelo privilgio de serem ouvidos.
- Vossa Graa est sendo muito correto, tomando esta atitude - disse ela.
- Eu estava torcendo para que voc chegasse a essa concluso. Bem, quero 
convid-la  a almoar comigo amanh, para que me d sugestes sobre como
devo arrumar a sala para a audio. Tambm gostaria de saber se voc acha
que seria melhor para eles ouvirem as msicas uns dos outros, ou se 
deveriam
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esperar em outra sala para se apresentarem aos jurados um a um.
Antes de qualquer comentrio de Vanessa, Lenox, gesticulando amplamente
com as mos fortes e viris, continuou cheio de entusiasmo:
-  em questes como esta que precisarei muito de voc e de seus 
conselhos. No posso me arriscar a ter outro fracasso.
- Quer dizer que... est pedindo minha ajuda? - perguntou Vanessa 
timidamente, sentindo-se embaraada com aquela solicitao.
- Mas  claro que sim! Se seu pai ainda estivesse vivo, no tenha dvidas 
de que eu pediria todas essas sugestes a ele. Mas como, infelizmente, 
ele no est mais entre ns acho que voc poder me auxiliar 
perfeitamente. E, para comear, poderamos dispensar as formalidades no 
tratamento. Meu nome  Lenox, est bem?
Vanessa mal podia acreditar no que estava ouvindo, mas mesmo assim sabia 
que tudo aquilo fazia sentido. O duque estava tentando reparar a situao
deplorvel a que ela e seus pais haviam chegado nos ltimos tempos...
Seria impossvel recusar o que ele lhe pedia!
A vida de Vanessa estava mudando a cada dia e ela sentia dificuldade em 
firmar-se naquelas novas situaes que se apresentavam... Mas tinha que 
seguir adiante!
- Tentarei ajud-lo, se  isso mesmo o que quer. Ou melhor, eu o ajudarei 
com prazer, se minhas sugestes forem teis... Lenox.
- Sei que ser capaz, fique sossegada. Alm disso, voc  filha de um 
gnio musical, no se esquea!
Vanessa sentiu-se envaidecida por ouvi-lo falar daquela forma. Nunca 
imaginara que a produo de seu pai chegasse a ser dignamente 
reconhecida!
Quando Lenox voltou a falar, seu tom de voz foi spero, nada gentil:
- Diga-me uma coisa, Vanessa. Como teve coragem de ir tocar num lugar to 
mal-afamado quanto a casa de Kate Hamilton?
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com alguma dificuldade, ela respondeu:
- Eu precisava trabalhar... E tive muita sorte de o outro pianista ter 
sido despedido por beber demais.
- Voc considera aquele salo adequado para tocar a msica de seu pai? 
Por que no deixou que eu conseguisse um lugar melhor para voc 
trabalhar? Estava disposto a ajud-la!
Vanessa fitou-o, mas por um longo momento nada foi capaz de responder.
Depois de alguns instantes, Lenox continuou:
- Est bem, voc me odeia. Mas, ao mesmo tempo, desvirtuar num bordel a 
msica e a sua habilidade enquanto pianista , no meu modo de ver, um 
crime contra tudo aquilo em que ns dois acreditamos.
com um supremo esforo Vanessa conseguiu falar:
- Como pode me dizer essas coisas? Eu no tinha escolha! Aceitei 
trabalhar para Kate porque seno iria passar fome! Alm disso, no queria 
aceitar suas esmolas!
- Isso no  verdade! Voc sabia que seu pai tinha direito a mil guinus 
como prmio. Esse dinheiro passou a lhe pertencer depois da morte dele! 
Eu no lhe daria esmolas, se tivesse me procurado. Apenas lhe entregaria 
o que lhe pertence!
Vanessa, mais uma vez, no teve como retrucar e Lenox continuou:
- Desde logo, fique ciente de que tem mais dinheiro para receber, agora. 
As msicas de seu pai esto sendo bem vendidas nas lojas e o editor
disse-me que imprimir mais partituras,
 pois os pedidos so muitos!
-  verdade mesmo?
- Claro que sim! A cada dia que passa, as composies de seu pai vm 
sendo mais e mais conhecidas. Voc tem um nome a zelar, menina! Deixe de 
lado seu orgulho e pense um pouco na memria de seu pai, que precisa ser 
preservada!
Lenox parou de falar, ao ver que os olhos dela estavam cheios de 
lgrimas.
Ficaram em silncio e o duque s retomou a palavra quando chegaram em 
frente  casa da sra. Bates.
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- Mandarei uma carruagem apanh-la amanh ao meio-dia meia. Durma bem, e 
no pense em nada, exceto em que seu pai ainda no morreu, mas que vive 
no corao de todos aqueles que ouvem a msica dele.
No esperou que Vanessa respondesse. Saltou rapidamente da carruagem e 
ajudou-a a descer.
Quando segurou as mos dela e seus olhos se encontraram, ambos souberam 
que no havia necessidade de palavras naquele momento.
Vanessa sentia como se aquelas mos fortes vibrassem contra as suas, 
dando-lhe uma sensao de conforto que nunca em sua vida pensara existir.
S quando Billy abriu a porta da casa foi que Vanessa teve fora para 
dizer algo, quebrando aquele estranho elo de sensaes que a unia a 
Lenox:
- Boa noite...
- Boa noite. Conversaremos melhor amanh. Pense apenas em seu pai e 
confie em mim.
Ao entrar em casa, Vanessa tinha a ntida impresso de estar vivendo um 
sonho...
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CAPTULO VI

Aps o almoo, ainda permanecia em Vanessa a impresso de que tudo fazia 
parte do sonho que havia se iniciado no dia anterior, quando o duque de
Arkholme a deixara diante da casa da sra. Bates.
Adormecera com a voz de Lenox ecoando em seus ouvidos misturada s 
lembranas das msicas que o seu pai costumava tocar ao violino para 
nin-la, quando ainda viviam na Hungria.
Logo cedo, ao acordar, levantara-se cheia de alegria, excitada com a 
deliciosa sensao de que algo extremamente maravilhoso estava para 
acontecer... Algo que no saberia definir claramente, mas pelo que 
ansiava desde a adolescncia.
J terminava de se arrumar, quando Billy entrou correndo em seu quarto e 
lhe falou, cheio de entusiasmo:
- A carruagem que vai lev-la chegou, srta. Vanessa.  puxada por uma 
linda parelha de cavalos e conduzida por dois cocheiros vestidos com 
roupas vistosas.
Vanessa sorriu diante da excitao que havia nos olhos brilhantes de 
Billy.
- Muito obrigada por ter vindo me avisar. J estou descendo.
Quando viu os cavalos, Vanessa entendeu por que o garoto ficara to 
entusiasmado: os animais eram belssimos!
No foi menor sua surpresa ao contemplar a manso Arkholme sob o 
esplendor do sol do meio-dia. Tudo naquele lugar parecia grandiosamente 
elegante e sofisticado, espelhando a personalidade de Lenox.
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Durante todo o almoo, ela sentiu a presena marcante do duque, que por 
sua vez tambm a fitava com estranha intensidade.
Desejando admirar-lhe os belos cabelos, Lenox sugeriu que ela tirasse o 
chapu, assim como o casaquinho curto que usava sobre o vestido.
- Est muito quente hoje - comentou ele.
Mais tarde, quando se levantaram da mesa e ela se dirigiu para o 
corredor, Lenox teve de admitir que nunca conhecera uma moa to adorvel 
e com cabelos to lindos quanto os dela.
Sem se falar, os dois percorreram a longa galeria que conduzia ao salo 
de msica, localizado em outra sala do palacete.
Assim que entraram no aposento, porm, Vanessa no pde reprimir uma 
exclamao de assombro. Havia um pequeno palco quadrado, sustentado nas 
laterais por pilares de mrmore, e lindos murais serviam de fundo ao 
melhor e mais bonito piano que ela jamais vira em toda a sua vida.
Tratava-se de um antigo Rosewood, ornamentado com guirlandas que, sem 
dvida, possua uma acstica no mnimo cem vezes melhor do que o velho 
instrumento de Kate Hamilton.
A um canto, localizava-se uma imensa janela que dava vistas para o jardim 
e, do lado oposto, outro painel pintado com talento. Do teto descia um 
enorme lustre de cristal.
Um grande espelho completava a beleza do ambiente, refletindo com 
elegncia o que estava  sua volta.
Sem esperar pelo convite do duque, Vanessa foi at o piano, levantou a 
tampa trabalhada do teclado e tirou um acorde.
Quando o som melodioso invadiu o ambiente, sentiu-se animada e, sem 
pensar duas vezes, acomodou-se no banquinho, comeando a tocar.
Inconscientemente, como se seu corao tivesse resolvido que melodia 
interpretar, Vanessa iniciou a execuo de uma das canes de amor de seu 
pai.
Enquanto isso, Lenox, demonstrando muito interesse, apoiouse contra um 
dos pilares e ficou observando a expresso sonhadora de Vanessa.
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Como todas as composies de Sandor Szeleti, essa tambm era fascinante e 
hipntica desde as primeiras notas, levando o ouvinte a acompanh-la no 
apenas com os ouvidos, mas com o instinto, com a mente e at com a alma, 
tornando impossvel no se identificar com sentimentos to pessoais. 
Assim, quem escutasse acabaria se sentindo parte integrante da cano, 
vibrando com cada uma das nuances da doce melodia.
No momento em que deu o ltimo acorde, Vanessa levantou o rosto 
vagarosamente, fitando Lenox.
Olharam-se intensamente por um breve instante, e ento ela falou:
- Papai disse, certa vez, que esta msica era... a essncia do amor.
Depois, sem dar tempo a Lenox para fazer qualquer comentrio que 
quebrasse o encantamento daquele momento, Vanessa comeou a tocar outra 
composio que evocava a lembrana de campos selvagens aoitados pelo 
vento, ou de um rio correndo ligeiro atravs de um vale florido.
A msica era to celestial que Lenox sentiu-se transportado a lugares 
quimricos, at ento desconhecidos.
- Certa vez, papai recomendou que esta msica s fosse executada em 
ambientes amplos como este. Dessa forma ela se tornaria mais excitante, 
romntica e ousada - comentou ela, ao final.
Suas ltimas palavras foram acompanhadas por um sorriso encantador.
Antes que ela tivesse tempo de esboar um nico movimento, o duque 
aproximou-se e, fazendo-a levantar-se, envolveu-a num forte abrao, 
beijando-a docemente.
Por um breve momento Vanessa ficou to surpresa que mal se deu conta do 
que estava acontecendo. Enquanto pensava se deveria lutar, a presso 
contra seus lbios lhe despertava emoes desconhecidas, que de alguma 
forma faziam parte da msica que acabara de tocar, s que de modo mais 
insistente e profundo.
Aquelas sensaes, to incrivelmente poderosas, deixavam-na incapaz de se 
mover ou mesmo de respirar. E,  medida que os lbios de Lenox se
tornavam possessivos e exigentes,
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aumentava sua nsia de se entregar ao mundo novo que lhe era apresentado 
por ele.
Arrepios de prazer percorriam seu corpo, fazendo-a estremecer e 
experimentar uma sensao de desejo que ela nunca provara.
Enfim, tudo o que Vanessa sempre imaginara, ao ouvir as canes do pai, 
havia se materializado naquele momento de intimidade com Lenox.
No havia como negar. Ela acabara de descobrir o significado do amor, em 
toda sua plenitude. O amor com o qual sempre sonhara, temendo jamais o 
encontrar.
Quando finalmente Lenox levantou a cabea, Vanessa, sentindo o corao 
acelerado dentro do peito, confessou:
- Eu... amo voc! Como  possvel am-lo, se acreditei que o odiava com 
todas as foras de meu corao?
- Eu tambm amo voc. A princpio, no consegui definir o tipo de 
sentimento que me ligava a voc. Considerava-a apenas uma pessoa capaz de 
me surpreender e intrigar mais do que qualquer outra...
Em vez de concluir a frase, Lenox beijou-a de novo, possessiva e 
apaixonadamente, como se, temendo perd-la, quisesse se certificar de que 
Vanessa estava realmente em seus braos.
Muito tempo depois, ele a conduziu do palco para um sof de frente para 
os murais.
Sentaram-se abraados, e Vanessa recostou-se contra o ombro dele, ainda 
sem conseguir pensar, sentindo o corpo inteiro vibrar pelas delcias dos 
beijos de Lenox e pela alegria de estar nos braos do homem amado.
Enquanto lhe beijava os cabelos, Lenox dizia:
- Voc  to bonita, querida! Nem pode imaginar como me torturei quando 
voc fugiu de mim. Imaginava-a em perigo com algum outro homem, e me 
sentia incapaz de salv-la.
- Eu estava em segurana. Afinal, no passava de uma simples pianista.
- Oh, mas aquele lugar  to horrvel! Voc nunca deveria conhec-lo.
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Lenox abraou-a com mais fora, protetoramente.
- No suporto a ideia de imagin-la em contato com pessoas daquele tipo! 
Agora que finalmente esse tormento se acabou, cuidarei de voc e prometo-
lhe jamais deix-la sozinha ou infeliz.
Lenox falou com a voz to cheia de paixo, que Vanessa fitou-o sorrindo.
"Ele  tudo que sempre desejei de um homem: forte, seguro e, ao mesmo 
tempo, gentil e cheio de considerao pelas pessoas", refletiu ela, 
completamente fascinada.
- Como pude acreditar que o odiava? - perguntou, depois de alguns 
momentos de silncio.
- Esquea isso. Minha querida, quero faz-la to feliz que o que sente 
por mim agora ser apenas um plido reflexo do sentimento que conhecer 
quando estivermos realmente ligados um ao outro.
Ao perceber um certo rubor no rosto de Vanessa, ele acrescentou 
rapidamente:
- No vamos falar mais nisso. Voc  minha e daqui para a frente deve 
deixar tudo em minhas mos.
Como se tivesse ficado excitado com o que acabara de dizer, Lenox
beijou-a novamente. No entanto, quando suas carcias se tornaram ousadas
demais, Vanessa levantou as mos num protesto mudo.
- Perdoe-me, querida. No quis ser rude e amedront-la, mas voc me faz
me sentir selvagem. S sei dizer que quando a toco me esqueo de que sou um
nobre ingls.
Vanessa riu, divertida.
- Isso  o que papai gostaria que as pessoa sentissem e o que tentava 
expressar em suas msicas.
- E  tambm o que sinto, minha querida, e vou faz-la sentir esta noite.
- Esta noite? - perguntou Vanessa, sentindo-se de repente estranhamente 
ameaada.
- No quero ficar longe de voc nem mais um minuto. Esta noite vou lev-
la para um hotel, onde voc ficar at que eu encontre uma casa digna de 
sua presena, entre as inmeras que possuo em Londres. Meu secretrio 
providenciar tudo. Enquanto isso, ficaremos juntos e nunca mais, meu 
amor, voc
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entrar num lugar to desqualificado quanto a casa de Kate Hamilton. 
Vanessa fitava-o absolutamente atnita.
- No estou entendendo.
-  muito simples - replicou Lenox, sorrindo. - Vou mandar um bilhete 
para Kate, informando-a que infelizmente voc no ir mais trabalhar no 
estabelecimento dela. Para suavizar a situao, enviarei uma quantia que, 
sem dvida, abrandar a fria dela por perd-la.
- Mas voc disse que eu... Vou para um hotel?
-  a melhor coisa a fazer. Sabe, minha querida, seria um erro voc 
permanecer aqui, pois isso no ficaria bem para uma pessoa na minha 
posio...
Lenox beijou-a na testa, antes de continuar:
- Como lhe disse, tenho vrias propriedades em Londres. A casa mais 
bonita e mais confortvel ser sua e, mesmo que j esteja mobiliada, ns 
a modificaremos inteiramente para deix-la ao seu gosto. Ser um lugar 
onde ficaremos absolutamente a ss e nada e nem ningum jamais nos 
perturbar! A eu a ensinarei a me amar do mesmo modo que a amo.
Ato contnuo segurou-a pelo queixo, forando-a a fit-lo para que 
percebesse o fogo da paixo que ardia em seus olhos.
Quando ele a beijou ainda uma vez, Vanessa tornou a experimentar a 
sensao de que seu corpo se derretia em meio s mais profundas emoes.
De alguma forma, porm, sua mente havia se dissociado daqueles 
sentimentos e protestava.
- Agora, meu amor, voc dever ir para casa arrumar suas coisas. Amanh 
eu a levarei s melhores costureiras de Londres. Assim, voc passar a 
usar vestidos que realcem a sua beleza e jias que brilhem como seus 
olhos.
Lenox admirou-a por um longo momento. Em seguida, pegou-a pelas mos e 
ergueu-a.
- Eu gostaria de poder beij-la at o fim do dia, mas ainda tenho muitas 
coisas a fazer - continuou ele. - Embora seja difcil suportar a 
distncia, serei obrigado a deix-la por algum tempo. Entretanto, 
conversaremos sobre ns dois durante o jantar.
Ao alcanarem a porta do salo de msica, pararam e Lenox
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beijou-a mais uma vez. Depois, em silncio, percorreram de mos dadas o
caminho de volta ao hall.
- Mandarei minha carruagem busc-la s sete horas, pois at ento j
terei acertado tudo - informou ele, assim que chegaram no final do
corredor. - Meu amor, essas poucas horas em que ficaremos separados
parecero sculos para mim!
Olhou-a intensamente por um instante e concluiu:
-  impossvel dizer o quanto a amo e a desejo.
Pareciam completamente hipnotizados um pelo olhar do outro, e Lenox 
precisou fazer um grande esforo para se libertar daquele estranho 
fascnio, comentando com aparente tranquilidade:
- Uma coisa  certa: providenciarei que o melhor piano disponvel esteja 
em sua casa para que voc possa tocar para mim, deixando-me, como seu pai 
dizia, "excitado, romntico e ousado".
Como haviam chegado ao hall, Vanessa nada respondeu, observando imvel os 
movimentos do duque, que pegava seu casaquinho e a ajudava a vesti-lo. Em 
seguida, indiferente ao que os criados pudessem pensar, ele lhe amarrou 
as fitas do chapu, com delicadeza.
Durante todo esse tempo, ele no parava de fitar-lhe os lbios, o que lhe 
despertou a sensao de estar sendo beijada em pblico. Constrangida, 
Vanessa abaixou os olhos, levemente enrubescida.
Depois, ele a ajudou a entrar na carruagem e, beijando-lhe a mo 
delicadamente, murmurou, para que s ela pudesse ouvir:
- At s sete, meu amor, quando ficaremos... juntos. Sem querer, Vanessa 
contraiu os dedos presos nas mos
dele e, como se tivesse ficado satisfeito com a resposta, o duque recuou. 
Um criado elegantemente vestido fechou a porta e a carruagem partiu 
apressada pelas ruas movimentadas de Londres.
Lentamente, como se um vento glido soprasse violento, o torpor do corpo 
de Vanessa desapareceu, o sonho que a acalentava se dissipou e ela foi
obrigada a encarar a dura realidade.
A verdade nua e crua era que o duque de Arkholme lhe oferecia no o amor
que ela procurava, aquele sentimento vivido
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por seus pais e expressado por Sandor Szeleti em suas msicas. No, no 
se tratava desse sentimento puro...
O que Lenox lhe oferecia era o que ela vira na Praed Street, no rosto 
pesadamente maquilado de Evie e nas penas extravagantes de seu chapu, na 
expresso dos olhos dos homens quando admiravam as garotas de Kate 
Hamilton. Tratava-se do amor das "saletas de refeio", com suas cortinas 
que escondiam uma ampla cama de casal...
Ao perceber que os cavalos haviam parado diante da casa da sra. Bates, o 
orgulho fez com que Vanessa erguesse a cabea, enquanto descia da 
carruagem e agradecia ao criado em voz calma e pausada.
Entretanto, assim que Billy lhe abriu a porta da casa, Vanessa subiu as 
escadas correndo, com os olhos marejados de lgrimas e a cabea zonza.
No quarto, arrumou rapidamente a bagagem, pois possua pouca coisa para 
guardar: apenas o vestido que usara na casa de Kate e alguns adornos que 
haviam pertencido  sua me.
Depois de fechar e amarrar a mala, desceu apressadamente at a cozinha, 
procurando pela sra. Bates.
- Vai embora, senhorita? - perguntou a mulher, aparentando tristeza. - 
Bem, fico muito surpresa. Pensei que se sentisse satisfeita e feliz aqui 
conosco.
- Estava feliz e a senhora sempre foi muito boa para mim, mas preciso 
sair de Londres imediatamente...
Sem saber como continuar, Vanessa fez uma pequena pausa, antes de 
acrescentar:
- Foi tudo to inesperado... Espero que me perdoe por avis-la to em 
cima da hora, sra. Bates.
O final daquela tarde arrancara completamente a felicidade que sentira 
antes, como se esta nunca tivesse existido, como se tudo no passasse de 
uma miragem vaga, sem consistncia nenhuma...
Minutos mais tarde, Billy chamou uma carruagem de aluguel Para ela e 
ajeitou sua bagagem.
- Obrigada por tudo o que fez por mim, Billy. Dizendo isso, Vanessa 
colocou uma moeda de ouro na mo
do garoto e, enquanto ele a fitava incrdulo, recomendou:
- No permita que ningum a tire de voc.
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Antes que o menino se recobrasse do susto, a carruagem partiu, deixando 
atrs de si uma nuvem de poeira.
Menos de cinco minutos depois de iniciarem o trajeto, o cocheiro se virou 
e disse:
- A senhorita no me falou para onde queria ir, mas, pela sua mala, 
imagino que vai esperar a diligncia...
Vanessa prendeu a respirao, apreensiva, sem saber direito que rumo dar 
 sua vida. Por fim, replicou com alguma dificuldade:
- No. Pretendo viajar. Por favor, leve-me ao estbulo que disponha da 
melhor e mais rpida carruagem de Londres.
De repente, ela se deu conta de que havia um tom spero em sua voz que 
nunca existira antes.
Ao mesmo tempo, seu corao chorava pelo sonho que desaparecia de sua 
vida, deixando-a sozinha num imenso deserto que duraria toda a 
eternidade.
Durante a tarde, o duque de Arkholme tomou todas as providncias para 
concretizar seus planos, cancelando uma longa lista de compromissos, 
inclusive um jantar muito importante ao qual deveria comparecer naquela 
noite. Agora, impaciente, aguardava a chegada de Vanessa.
O sr. Carstairs fora encarregado de fazer reservas para dois em um hotel 
famoso pela discrio e sigilo em relao aos hspedes.
No era exatamente o local para onde o duque gostaria de levar Vanessa, 
mas pelo menos ficariam juntos, dispondo de algum conforto.
Enquanto isso, seu secretrio particular desdobrava-se, providenciando 
tudo para que, no dia seguinte, a casa em St. John's Wood, de propriedade 
do duque h alguns anos, estivesse provida de criados e pronta para 
receber o casal.
Como a maioria dos homens ricos de Londres, o duque de Arkholme adquirira 
vrias casas com o objetivo de aumentar seu patrimnio. Reservava, porm, 
duas ou trs para seu uso e, quando lhe convinha, instalava nela alguma 
de suas amantes.
Era comum para todos os cavalheiros daquela poca ter o que se chamava 
uma "cipriota" ou uma "bela treinadora de cavalos"  disposio.
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Ainda que preferisse ter affaires de coeur com damas da sociedade, o 
duque de Arkholme tomava s vezes sob sua proteo alguma cantora ou 
danarina do Covent Garden, embora raramente conseguisse manter seu 
interesse por elas durante muito tempo.
Dessa vez, porm, no permitiria que Vanessa ocupasse uma casa que j 
houvesse abrigado outra mulher.
Ela era to diferente de qualquer outra, e to preciosa, que o duque 
exigia que sua futura habitao fosse to extraordinariamente bela quanto 
um templo, em homenagem ao grande amor que os unia.
A residncia em St. John's Wood, grande e rodeada por um imenso jardim, 
parecia corresponder a isso. Ainda que aquela parte de Londres estivesse 
associada s amantes de homens ricos, o duque de Arkholme refletiu que, 
num bairro mais elegante, a chegada de uma carruagem sustentando o braso 
de sua famlia provocaria muitos comentrios.
E ele no pretendia colocar mais lenha na fogueira daqueles que no 
tinham nada para fazer, a no ser falar da vida dos outros.
- Tem certeza de que a casa em St. John's Wood  mesmo boa? - perguntou o 
duque ao sr. Carstairs.
- Posso lhe garantir que  uma das mais bonitas do bairro.
- Irei at l amanh. Nesse nterim, v tomando as providncias para 
instalar os criados e as coisas mais urgentes. Mais tarde lhe direi quais 
quadros desejo levar"daqui para l.  possvel que eu decida levar alguns 
dos que esto em Holme Park.
O sr. Carstairs, sempre muito discreto, jamais arriscaria qualquer 
comentrio.
No entanto, no pde ocultar a surpresa. Em todos os anos que trabalhara 
para o duque, nunca o vira tirar nada de uma de suas casas para levar a 
outra, onde quisesse instalar uma amante.
Tampouco em alguma outra ocasio Lenox parecera to feliz e 
despreocupado.
Sua expresso, mais aberta e descontrada, proporcionavalhe uma aparncia 
jovem, e seu rosto perdera aquele ar de desdm que intimidava muita
gente.
101
"Meu patro est perdidamente apaixonado", deduziu o sr Carstairs, em
silncio, apesar de mal conseguir acreditar que aquilo fosse verdade.
s sete horas em ponto, o duque de Arkholme aguardava Vanessa no salo 
principal da manso. Usava um traje de noi te, pois resolvera que 
jantariam em Park Lane, antes de seguirem para o hotel.
Chegou a considerar a hiptese de jantarem em sua saleta particular, 
anexa ao quarto, mas instintivamente achou que Vanessa a associaria s 
"saletas de refeio" do estabelecimento de Kate Hamilton.
Lenox chegara a us-las algumas vezes e, sabendo que eram muito populares 
entre seus conterrneos, no pde deixar de imaginar qual seria a opinio 
de Vanessa a respeito daqueles lugares.
Uma ruga de preocupao desenhou-se em sua testa, ao pensar que tudo o 
que Vanessa presenciara na casa de Kate deveria ser chocante e terrvel 
para uma jovem que s costumava sair acompanhada pelo pai ou pela me, e 
que at a morte de Sandor Szeleti nunca ficara s.
Entretanto, pelo fato de existir uma inegvel aura de pureza que envolvia 
Vanessa, Lenox tinha a sensao de que ela no compreendera a maior parte 
das coisas que vira e ouvira durante sua permanncia em Praed Street.
"Para os puros tudo  puro", pensou, brincando consigo mesmo, mas 
sentindo-se ao mesmo tempo incomodado.
- Vanessa  jovem e vai esquecer - disse em voz alta, para se 
tranquilizar.
Em seguida, continuou a planejar os vestidos que lhe daria e as jias que 
fecharia em torno de seu pescoo e de seus delicados pulsos.
S de pensar em Vanessa, seu corao parecia vibrar, e o sangue lhe 
corria mais rpido nas veias.
Desejava-a no apenas devido  sua beleza, mas tambm porque as msicas 
que ela tocava o transportavam a um paraso desconhecido.
De repente, Lenox comeou a sentir que novas ideias e ambies 
despertavam em seu ntimo, fazendo-o refletir sobre os
102
discursos que proferiria na Cmara dos Lordes, sobre as reformas que
defenderia e pelas quais lutaria e sobre novas maneiras de ajudar o pas.
Dedicaria seu tempo a coisas boas, ao invs de simplesmente buscar 
prazer!
"Quando Vanessa e eu estivermos juntos, revolucionaremos o mundo da 
msica do nosso pas e, talvez, da Europa inteira!", pensou ele.
Nesse instante, a porta foi aberta e ele se virou, ansioso por contemplar 
Vanessa. Entretanto, era Newman quem estava ali parado e, depois de 
aguardar durante alguns segundos que o mordomo a anunciasse, indagou, 
irritado:
- O que foi, Newman?
- A carruagem voltou, milorde. Mas a srta. Szeleti deixou a casa em que 
morava.
- Que diabo est querendo dizer com... "deixou"? - perguntou Lenox,
recusando-se a acreditar naquela notcia.
- A proprietria informou ao cocheiro que a jovem partiu meia hora depois 
de haver chegado, esta tarde.
- No acredito! Recuso-me a acreditar nisso! - gritou o duque, furioso. - 
A srta. Szeleti sabia que a carruagem iria busc-la s sete. Ns 
combinamos!
- Johnson esperou at as sete e meia, milorde, mas como a senhoria 
garantisse que a srta. Szeleti no voltaria, pois sara levando a 
bagagem, ele achou melhor voltar para informar Vossa Graa.
Incapaz de reagir, Lenox permaneceu em silncio, imvel, sob o olhar 
atnito do criado. Uma voz lhe dizia que havia perdido Vanessa e, dessa 
vez, para sempre!
Nesse nterim, a carruagem na qual Vanessa viajava chegou s proximidades 
de uma enorme manso georgiana, nos arredores de St. Albans.
Fora preciso pouco mais de duas horas para ir de Londres at l. A cada 
centmetro que percorriam, crescia o medo de Vanessa em relao ao que a 
esperava dali para a frente. Ao mesmo tempo, sentia-se infinitamente 
triste por ter deixado seu grande amor para sempre.
Mas de que outro modo poderia agir? Se no fugisse dele,
103
teria trado seus prprios ideais, a msica do pai e tudo que a me 
sonhara para seu futuro!
"Ser que eu seria capaz de me tornar igual a Lucy, Molly ou Daisy?", 
perguntou-se, lembrando-se das garotas que trabalhavam na casa de Kate 
Hamilton e nunca haviam parecido reais para ela.
Mesmo quando conversavam e elas se mostravam gentis, Vanessa sentia-se 
longe delas, como se habitassem mundos diferentes.
Elas podiam ser educadas e boas, mas gravitavam em uma esfera que Vanessa 
instintivamente abominava.
E agora Lenox a convidara para tornar-se uma delas... Oh, no! Seria mil 
vezes mais feliz se morresse do que se concordasse em viver num mundo 
igual ao daquelas mulheres!
A neblina encobria os ltimos raios de sol daquela tarde e Vanessa teve a 
impresso de que a velha manso georgiana devia parecer terrivelmente 
ameaadora sob a luz das estrelas.
Sentia-se extremamente tensa. Talvez o medo que aquele lugar lhe 
despertava tivesse origem nas histrias que sua me lhe contara em sua 
infncia.
Assim que a carruagem parou em frente  entrada principal da manso, 
Vanessa sentiu-se repentinamente fraca e trmula.
Tudo o que queria era estar confortavelmente segura nos braos fortes e 
viris de Lenox. Chamava silenciosamente por ele, pedindo-lhe que viesse 
salv-la, embora soubesse que se perderia com ele... Por mais que o 
desejasse, no poderia voltar para seu amado.
"No posso fazer isso", disse a si mesma, lutando contra aquele desejo 
intenso de voltar correndo para a proteo poderosa, mas insegura e fugaz 
do duque...
Um criado da casa veio abrir-lhe a porta. Assim que desceu, Vanessa 
virou-se para o cocheiro e lhe pediu:
- O senhor poderia me aguardar um pouco? Acho que ficarei nesta casa, mas 
ainda no tenho certeza.
- Esperarei por uns dez minutos, senhorita. Depois preciso voltar para 
Londres.
Vanessa comeou a subir as escadas da manso, impressionada com a 
quantidade de criados que apareciam  porta, curiosos para ver quem 
chegava.
104
Decidida, caminhou em direo a um velho senhor, que aparentava ser o 
mordomo da manso.
- Quero falar com o conde de Sandridge - disse ela, tentando a todo custo 
esconder a grande emoo que a dominava.
- Acho que Sua Senhoria no marcou nenhuma entrevista com a senhorita...
- No, no marquei nenhum horrio com o conde - concordou ela, 
educadamente. - Por favor, queira anunciar a ele que sua neta Vanessa
est aqui e deseja muito lhe falar.
O homem arregalou os olhos, espantado.
- No pode ser, senhorita! Ento  a filha de lady Melina?. - Sim, 
senhor. Sou a filha de lady Melina.
- Por acaso sua me veio com a senhorita?
- No... Minha me faleceu no comeo do ano, em Londres.
- Oh, que coisa triste! Sinto muitssimo a morte dela. Depois que partiu,
esta casa nunca mais foi a mesma...
Sentindo que estava prestes a chorar, Vanessa esforou-se para se 
autocontrolar.
- Muito obrigada por suas palavras. Agora, talvez, o senhor queira 
informar ao conde que eu desejaria falar-lhe.
Mostrando-se apreensivo, o homem conduziu-a ao longo do vestbulo 
ricamente decorado da manso.
 Ele ia abrir uma porta  direita, quando pareceu mudar Irepentinamente 
de ideia.
- Srta. Vanessa, acho melhor que me acompanhe at a presena do conde -
disse ele.
Sem retrucar, ela o acompanhou at uma outra porta ricamente entalhada,
que ele abriu, anunciando com uma voz muiWo emocionada:
- A srta. Vanessa deseja lhe falar, milorde! Depois indicou-lhe, com um 
gesto, que entrasse.
Vanessa teve a impresso de que a biblioteca estava vazia, porm logo 
distinguiu uma figura sentada numa poltrona,  frente da lareira.
No incio, no conseguiu mover-se. Tinha muito medo do av, pois o 
imaginava um homem enorme e cruel!
Entretanto, a figura que estava diante de si, talvez pela idade avanada, 
parecia pequena e frgil. Seus cabelos eram brancos
105
e, quando ele se virou para encar-la, estreitou a vista, dando a 
entender que enxergava com dificuldade.
Finalmente, Vanessa encheu-se de coragem e se aproximou, parando em 
frente  poltrona.
- Quem  voc? - perguntou ele. - No entendi direito quando Danvers a 
anunciou.
- Meu nome  Vanessa, senhor. Sou sua neta, filha de lady Melina!
Houve um momento de profundo silncio. Em seguida, o velho conde falou, 
com a voz entrecortada pela emoo:
- Foi sua me quem a mandou at aqui para falar comigo?
- Mame... est morta. No inverno passado fez muito frio e no tnhamos 
dinheiro suficiente... para comprar comida e lenha para nos aquecer.
Falava claramente porque queria que o av soubesse de toda a verdade. 
Estremeceu, porm, ao perceber que ele a observava com muita ateno, 
como se duvidasse de suas palavras.
- Morta! - exclamou o conde, afinal.
- Sim... mame morreu. Vim at o senhor, vov, porque... preciso muito de
sua ajuda.
- E para que necessita de mim? Por que seu pai no pode cuidar de voc?
- Papai tambm morreu, vov. Quando viemos para a Inglaterra, o frio e a 
falta de alimentos deixaram-no to doente que ele no pde mais tocar 
violino. Acho que a causa de sua morte foi... inanio.
A jovem percebeu que suas palavras estavam deixando o velho av comovido.
- O que espera que eu faa agora, garota? - indagou ele, com dificuldade. 
- Sua me foi embora desta casa por causa de um msico hngaro. Eu a 
avisei naquela poca que, se ela fizesse isso, eu no a consideraria mais 
minha filha!
- Mas o senhor deve sentir saudades dela, no ? Eu tambm sinto falta de 
mame.
De repente, guiada apenas pelo instinto, ela se ajoelhou ao lado da 
poltrona, fitando o av.
- Por favor, seja bom para mim. Deixe-me ficar aqui durante algum tempo. 
No disponho de dinheiro... e tenho medo
106
de dar um passo errado, que mame jamais aprovaria. No tenho para onde
ir, nem ningum no mundo, a no ser o senhor...
Vanessa tinha certeza de que fora sua me que a guiara at aquela casa. 
Fora ela tambm que a fizera fugir da tentao de se entregar a Lenox e 
que a conduzira at o av, para pedir-lhe proteo contra os tormentos 
que poderiam aguardla no futuro!
- Seu rosto  igual ao de Melina. S a cor dos cabelos  que  diferente 
- comentou o velho, observando-a com ateno.
- Fico contente por ser semelhante a mame. Tento igualla tambm no 
aspecto moral. Sei que ela aprovaria minha deciso de vir at aqui. Agora 
que papai morreu... acho que este  o lugar onde devo ficar.
- Sua me abandonou esta casa sem o menor arrependimento.
Havia muita mgoa na voz do velho conde.
- Sei que isso o entristeceu muito, vov, mas talvez o senhor fique mais 
tranquilo se souber o quanto ela foi feliz at virmos para a Inglaterra. 
S ento as coisas comearam a dar
errado. No tnhamos dinheiro... e ningum se interessava
em ouvir a msica de papai.
Vanessa pde perceber claramente como o rosto do conde
se contraa quando ela mencionava o nome do pai.
Teve a ntida impresso de que ele no concordaria com seu
pedido... O que faria, ento? No lhe restava outra alternativa a
no ser voltar para Londres, onde acabaria sucumbindo
ao convite de Lenox... Poderia se entregar a ele, seria sua
amante. e depois? No! Precisava arranjar um meio de convenc-lo a deix-
la
ficar. Imploraria ao av que a ajudasse e tomasse conta dela!
No devia voltar a Londres. No devia!
Colocando a mo sobre o joelho do conde, implorou com
toda a fora de seu corao:
- Por favor, vov, ajude-me! Tenho medo... Estou sozinha no mundo. O que 
ser do meu futuro? s vezes creio que no
sei cuidar de mim mesma.
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Nesse momento, suas palavras foram interrompidas por um soluo
desesperado que a fez comear a chorar copiosamente .
O velho manteve-se em silncio por um longo momento como se estivesse
pesando muito bem os acontecimentos. Depois colocou a mo sobre a de
Vanessa e murmurou- Voc  minha neta e  ao meu lado que deve ficar!
108

CAPITULO VII

Depois de entrar na manso Arkholme, Brooky entregou seu chapu e sua 
bengala a Newman, que o informou:
- Sua Graa est no salo de msica.
Desde que perdera Vanessa, Lenox percorria a cidade inteira, sobretudo as 
casas de dana,  sua procura, ou, ento, ficava horas e horas sozinho no 
salo de msica tocando as composies de Sandor Szeleti.
s vezes, ao ouvir as mesmas melodias tocadas nos realejos ou 
cantaroladas nas ruas, Brooky achava que acabaria enlouquecendo.
Entretanto, no eram aquelas msicas que o deixavam aborrecido, mas sim 
sua ansiedade pelo estado de Lenox e sua incapacidade de ajud-lo.
Durante os longos anos de amizade com o duque, jamais o vira naquele 
estado. Comportava-se, de fato, de forma totalmente diversa da habitual.
Deixara de ser uma pessoa calma, no mostrava mais o desprezo distante 
pelos outros e tampouco deixava transparecer sinais de cinismo e 
arrogncia.
Lenox transformara-se num homem que sofria intensamente. Brooky 
entristecia-se mas, ao mesmo tempo, conseguia compreend-lo.
De todos os homens que conhecera, o duque de Arkholme era o ltimo que 
ele imaginaria capaz de se apaixonar to profundamente. Brooky no tinha
dvidas de que, at reencontrar Vanessa, Lenox no voltaria a ser o mesmo 
de antes.
Se o duque passava as noites acordado, debatendo-se na cama, com Brooky 
acontecia o mesmo. Ficava horas a fio tentando
109
descobrir uma forma de ajudar o amigo e perguntandose onde Vanessa
estava, e por que teria se comportado daquela maneira.
Durante uma semana, a reserva natural de Lenox obrigou-o a guardar 
segredo sobre o motivo do desaparecimento dela. Finalmente, no podendo 
esconder mais, contou toda a verdade.
- Juro que no me passou pela cabea pedi-la em casamento - confessou, 
num tom de voz cheio de melancolia.
Quando voltou a falar, foi como se estivesse pensando alto:
- Por sempre ter me sentido pressionado a casar e devido  influncia de 
meus pais, que no se cansavam de falar sobre a importncia de dar um 
herdeiro  famlia Arkholme, peguei raiva at da palavra casamento, e 
fugia dele como o diabo da cruz.
Embora tivesse feito aquele comentrio, o duque de Arkholme no contou ao 
amigo o que o levara a compreender claramente o motivo pelo qual Vanessa 
fugira daquela maneira.
Na noite seguinte  da fuga, ele percebera como havia sido tolo por no 
ter refletido antes de agir. Entendeu que suas propostas haviam ofendido 
a pureza e os sentimentos nobres de Vanessa, to bem expressos na msica 
que tocava. compreendeu tambm que ele prprio deixara morrer os ideais 
que um dia nutrira, vivendo uma vida superficial e sem objetivos.
Ao tomar conscincia de seus erros, Lenox mergulhou num sentimento de 
culpa to profundo que temia s vezes perder a razo.
- Por que no percebi isso antes? Por que no compreendi que no poderia 
ter agido com Vanessa daquela maneira, pois ela  diferente de todas as 
mulheres que j passaram por minha vida? - perguntava-se, no quarto.
Ao mesmo tempo, pensava no quanto fora mimado por damas capazes de fazer 
qualquer coisa para incitar-lhe o desejo, sempre muito conscientes de 
que, acima de ser um homem fascinante, ele era o duque de Arkholme.
Ao beijar Vanessa, porm, sentira que a posio social pouco importava: 
tratava-se apenas do encontro de duas pessoas que pertenciam uma  outra 
de corao e alma.
- Idiota! Que idiota eu fui! - murmurava ele.
110
Noite aps noite, Lenox via-se assombrado pelo espectro de seus
prprios erros, sentindo-se como um homem que tivera fnas mos o tesouro
mais precioso do mundo e o perdera por pura insensatez.
A determinao e o orgulho do duque lhe diziam, porm, que no devia se 
sentir derrotado. Tinha certeza de que a encontraria novamente e ento 
poderia implorar por seu perdo e lhe pediria de joelhos, se fosse 
preciso, que o honrasse aceitando ser sua esposa.
Sim, Vanessa era digna de tornar-se duquesa e, se ele no mais a 
encontrasse, sua vida j estaria acabada.
- Nenhum de seus investigadores, ex-policiais ou sei l o que sejam,
tem meios de localizar a srta. Szeleti? - pergunI tara Brooky,
impaciente, ao sr. Carstairs.
- Eles esto tentando encontr-la, senhor - informou o
homem, com voz preocupada. - Tenho doze elementos empeEnhados nessa
busca, mas at agora no descobriram nenhuma
pista da jovem, aqui em Londres.
- Como  possvel algum evaporar desse jeito?
Apesar de furioso, o lorde compreendia que, em uma cidade
grande e populosa como Londres, no era to difcil assim uma
pessoa desaparecer sem deixar qualquer sinal.
Agora, percorrendo apressado o caminho at o salo de msica, o lorde
ouviu que o amigo executava ao piano a composio de Sandor Szeleti a
qual Vanessa se referira como sendo "a essncia do amor".
Ansioso, acelerou o passo e abriu a porta com tanto barulho que Lenox,
sempre alheio a tudo enquanto tocava, virou a  cabea surpreso.
Ao ver a expresso eufrica do rosto de Brooky, o duque
tirou as mos do teclado e indagou, curioso:
- O que foi? Teve alguma notcia?
Como resposta, Brooky simplesmente atravessou o salo, entregando-lhe uma
folha de papel.
- Eu a encontrei! - afirmou pouco depois, com tranquilidade.
Entretanto, duvido que voc fique satisfeito com o que vai ler nesta
carta.
111
Por um momento, o duque de Arkholme olhou hesitante para aquele pedao de
papel.
-  uma carta de minha tia que mora nas proximidades de St. Albans, em
Hertfordshire - explicou Brooky. - Leia o que ela conta e entender por
que no conseguimos localizar Vanessa.
Apreensivo, Lenox pegou o envelope e teve a impresso de que a caligrafia
feminina, pequena eregular, danava diante de seus olhos. Em seguida, se
forou a ler o que estava escrito no papel que trazia o braso da famlia
de Brooky.
"Meu caro sobrinho,
Mando um criado entregar-lhe esta carta por considerar de extrema
importncia sua presena no casamento de seu tio, que se realizar na
prxima quinta-feira, portanto dentro de dois dias.
Sei que ser uma surpresa para voc e talvez no muito agradvel, na
medida em que tem parte na herana de meu irmo Edward. Bem, mas a
verdade  esta: depois de ficar solteiro por todos estes anos, Edward
resolveu se casar. Apesar de todo o nosso espanto, naturalmente
conclumos que devamos apoi-lo.
 uma histria estranha e, de certa forma, romntica. Voc deve se
lembrar do conde de Sandridge, que mora aqui perto, em uma enorme casa de
estilo georgiano, cujas festas voc chegou a frequentar em criana.
Pois bem, esse nobre tinha uma filha muito bonita e, embora eu no
soubesse naquela poca, seu tio Edward se apaixonara perdidamente por
ela, quando ainda era uma menina.
Ele contava trinta e sete anos na poca, e por isso foi evidentemente
rejeitado pelo conde como pretendente  mo da filha. Como seu tio
continuasse a insistir, o conde levou a jovem Melina para a Hungria, na
ocasio em que foi designado para representar a rainha no casamento do
prncipe Esterhazy. Durante essa estada, porm, Melina se apaixonou
loucamente por um instrumentista hngaro.
Fiquei sabendo que os Esterhazy, apesar de grandes admiradores de msica,
insistiam em manter os musicistas em seus
112
devidos lugares. Aconteceu, no entanto, que a jovem Melina decidiu fugir
com o artista hngaro, de nome bastante estranho.
Desse momento em diante, o conde de Sandridge nunca mais falou em sua
filha e agia como se ela no mais existisse.
No sei como seu tio Edward se sentiu diante disso, pois ele no me fez
confidncias. Entretanto, nunca mais ouvi-o falar em casamento.
H cerca de um ms, a filha de Melina apareceu repentinamente na manso
Sandridge e o conde perdoou o comportamento de sua me, agora j morta, 
passando a reconhec-la como neta.
Para resumir, seu tio Edward pediu em casamento a filha da mulher que 
amou durante toda a vida e, embora possa parecer extraordinrio, tendo em 
vista a diferena de idade entre Edward e a mocinha, o conde deu seu 
consentimento para que se oficialize a unio de ambos na prxima quinta-
feira.
Vanessa,  o nome da moa,  encantadora, mas quando a conheci outro dia 
no me pareceu estar muito feliz.
Tudo ocorreu muito depressa e me parece estranho que seu tio e essa jovem 
no tenham resolvido prolongar o noivado, para se certificarem de que no 
esto cometendo um grave erro.
Ao mesmo tempo, o conde de Sandridge anda muito mal de sade e pode 
morrer a qualquer momento. Acredito que ele pense que sua neta estar em 
segurana na companhia de Edward, caso venha a falecer. Talvez seja essa 
a razo para um casamento to precipitado.
De qualquer maneira, querido, espero que voc compreenda que precisamos 
estar ao lado de seu tio e apoi-lo nesse momento, pois, como voc bem 
pode imaginar, vrios parentes o acham velho demais para unir-se a uma 
garota to jovem.
Por favor, tente estar em minha casa na prxima quinta-feira a tempo de 
almoarmos juntos antes da cerimnia, que ser realizada na capela de 
Sandridge, s duas horas da tarde.
Estou com saudades suas e tenho certeza de que voc vir apoiar seu tio 
neste momento.
Aceite um abrao carinhoso de sua tia,
Denise. "
113
Lenox leu a carta lentamente e quando terminou, o lorde disse:
- Sinto muito, Lenox.
- Sente muito? - repetiu ele, com voz radiante. - Graas a Deus ns a 
encontramos!
- Mas, Lenox, no podemos impedir um casamento no ltimo momento. E, alm 
do mais, Vanessa deve estar apaixonada por meu tio.
Lenox no deu a mnima ateno s palavras do amigo. Seus olhos estavam
brilhantes e, como num passe de mgica, sua expresso se desanuviara,
retomando um aspecto jovem e seguro de si.
- Nunca saberei como agradec-lo por ter encontrado Vanessa, Brooky! - 
afirmou ele, levantando-se da banqueta do piano. - Mas agora preciso de 
sua ajuda ainda uma vez.
Aps a chegada  imensa manso Sandridge e da conversa emocionada com o 
av, Vanessa sentia-se como uma sonmbula, em meio a um sonho confuso e 
distante da realidade.
Era como se o contato com o velho conde a tivesse tirado do mundo dos 
vivos.
 noite, chorava amarga e desesperadamente por Lenox, molhando a fronha 
de cetim do travesseiro com lgrimas de amor. Durante o dia, no entanto, 
transformava-se em uma boneca dcil que se movia e falava algumas frases 
de vez em quando, mas cujo crebro sequer existia.
s vezes, tinha impresso de que a verdadeira Vanessa Szeleti havia 
ficado em algum lugar da sedutora Londres, e que a garota que fora viver 
na manso Sandridge no passava de um fantoche sem emoo e sem vida.
Os dias corriam vagarosamente, sem que ela sentisse seno um enorme vazio 
na alma. Era como se fosse um fantasma vivendo na velha manso onde sua 
me passara a infncia, muitos anos atrs.
Sempre que entrava nos aposentos que haviam pertencido a Melina, e que 
continuavam exatamente como ela os havia deixado, sentia que sua querida 
me estava por perto, contemplando-a com olhar carinhoso. Era nesses 
momentos que uma
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angstia atroz tomava conta de seu corao, fazendo-a rezar, entre
soluos:
- Ajude-me, por favor, mame! Diga-me se errei... se me enganei ao deixar
Lenox. Ser que eu no teria agido melhor seguindo os impulsos do meu 
corao e ficando ao lado dele? Oh, por favor, ajude-me a me libertar 
dessa dvida torturante!
Melina fora uma mulher corajosa ao abandonar a famlia, ttulo de nobreza
e herana em troca do amor. Comparando aqueles aposentos extremamente
luxuosos da casa do av com o quartinho miservel onde a me terminara 
seus dias, Vanessa ficava sem saber se, no fundo, sua me agira da 
maneira mais conveniente.
Mas  claro que agira! O amor que existia entre Sandor Szeleti e ela os 
unia contra todas as desavenas, deixando-os fortalecidos o suficiente 
para enfrentarem lado a lado as dificuldades da vida,
"Se tivesse tentado, talvez eu vivesse um grande amor com Lenox, igual ao 
de papai e mame", pensou ela certa vez.
No, seu caso era muito diferente. Lady Melina havia deixado o luxo e a 
riqueza para se realizar no amor, mas, tornandose amante de Lenox, 
Vanessa teria apenas um perodo de riqueza, nunca um amor puro e 
verdadeiro. Ganharia jias, vestidos caros, mas ao mesmo tempo um 
relacionamento fugaz e inseguro...
Quando o coronel Edward Brook foi visit-la para conversarem a respeito 
de sua me, Vanessa ficou encantada. Deu-lhe as boas-vindas e quis ouvir 
as histrias da poca em que sua me vivia na manso do conde de 
Sandridge.
O coronel tentou contar-lhe com exatido o quanto sua me era bonita e 
como todos gostavam dela na regio. Vanessa adorava aqueles longos 
seres, durante os quais descobria novas coisas sobre sua me, do ponto 
de vista de um homem que, sem dvida nenhuma, a amara de verdade.
Por isso pedia ao coronel que aparecesse sempre, pois desejava conhecer 
mais detalhadamente a vida da me.
Nessas ocasies, ela conseguia imaginar lady Melina, bela e elegante, 
andando pela manso, cavalgando pelo parque ou recebendo os vizinhos... 
Aquilo tudo se encaixava perfeitamente
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nas coisas que sua me lhe contava quando ainda viviam na longnqua Hungria.
Depois de apenas quinze dias de sua chegada  manso, o coronel Edward
Brook pedira ao conde permisso para casar-se com ela.
Vanessa tinha certeza de que o av aceitara aquele pedido em um dos
momentos de delrio nos quais a confundia com a filha falecida. Para o
conde, a neta era a prpria lady Melina que retornara depois de tantos
anos. Alm disso, o velho temia morrer e deix-la desamparada.
Lembrava-se perfeitamente de uma conversa que tivera com o av, cinco dias
depois de chegar  manso, em um de seus raros momentos de lucidez.
- Ser difcil para mim deixar alguma coisa para voc, a no ser um pouco
de dinheiro, querida, - dissera ele, emocionado.
- Tudo o que possuo est dividido entre meus filhos, seus tios. Um deles 
mora em Khartoum, como Governador do Sudo, e o outro  vice-rei da 
Irlanda. Como v, eles tm cargos muito importantes.
Vanessa, embaraada com aquele assunto, permaneceu em silncio. O conde 
ento acrescentou:
- Meus filhos tm famlia grande e o dinheiro que ganharem de herana no 
ser suficiente para cobrir-lhes as despesas!
- Vov, eu detestaria que eles pensassem que vim aqui para tirar-lhes o 
que lhes  de direito - retrucou Vanessa com rapidez.
Mas, enquanto pronunciava aquelas palavras, pensava no que faria da vida 
quando o av morresse, deixando-a mais uma vez sozinha e sem dinheiro 
para levar uma vida digna.
- Depois da minha morte, algum de nossos parentes certamente tomar conta 
de voc - assegurou o conde, como se lesse os pensamentos da neta. - Alm 
disso, providenciarei uma pequena penso, para que voc no dependa da 
caridade de ningum!
Essa preocupao com o futuro da neta  que levara o conde a aceitar o 
pedido de casamento do coronel que, apesar de idoso, possua uma grande 
fazenda e excelentes rendimentos.
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Compreendendo as razes do av, Vanessa no ousou contrariar sua deciso.
Na verdade, no enxergava no coronel seu futuro marido, mas sim uma 
figura paternal, que seria muito gentil com ela e substituiria seu av.
Ao conversarem sobre o matrimnio, em nenhum momento ele se mostrara 
impetuoso ou ousado. Agira muito respeitosamente e, quando Vanessa lhe 
dissera pessoalmente que aceitava seu pedido, ele se limitara a beijar-
lhe as mos, o que a deixara bastante tranquila.
Aquele casamento no afetava em nada seus sentimentos. J que o destino 
impedira sua unio com Lenox, nada mais lhe importava no futuro...
Entretanto, nos raros momentos em que se sentava ao piano, escapava para 
o mundo de magia onde certa vez Lenox a beijara. Porm essas lembranas 
eram to dolorosas que ela evitara tocar a cano de amor que os 
precipitara um para os braos do outro.
Oh, como gostaria de toc-la novamente para Lenox em seu salo de 
msica...
No! No podia pensar mais nele, muito menos agora que estava noiva de 
outro homem! Precisava arranc-lo de seus pensamentos, mesmo consciente 
de que jamais o tiraria do corao...
"Como poderei me casar com algum que me  totalmente indiferente? Como 
conseguirei pronunciar o nome de outro homem, quando meu corao clama 
desesperadamente por Lenox, meu verdadeiro amor? "
Definitivamente, afastaria de si essas dvidas. Devia ter em mente apenas 
a conversa que mantivera com o mdico do av, na qual ficara mais do que 
claro que o velho conde sentia-se tranquilo ao saber que a neta ia se 
casar com algum que se responsabilizaria por ela.
- O senhor conde piora a cada dia, lady Vanessa - dissera o mdico, 
sada do quarto do velho.
- Tambm notei, doutor. Parece-me que o vejo sempre mais confuso. Ontem 
passou o dia todo com a certeza de que eu era minha me.
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- Muitos velhos se refugiam no passado... Mas isso no  to ruim assim, 
pelo menos no caso do conde, no  mesmo? Afinal, acredito que j 
percebeu o quanto ele est mais feliz agora que sabe que voc ter um 
futuro garantido ao lado do coronel.
- Sim... percebi, doutor - murmurou ela, estremecendo. Teria que se casar 
com o coronel de qualquer forma, caso
contrrio acabaria apressando a morte do av...
- O conde confia muito no coronel, pois so amigos h muitos anos. Tem 
certeza de que ele cuidar bem da senhorita e acha que pode morrer 
sossegado.
- Sim, meu casamento dar tranquilidade a vov - admitiu Vanessa.
E para ela? Bem, no final das contas, no lhe restava outra alternativa. 
No tinha como voltar atrs em sua deciso.
Considerou a possibilidade de retornar a Londres e procurar Lenox, 
dizendo-lhe que o amava e que ficaria com ele de qualquer forma.
Mas onde encontrar foras para dar aquele passo definitivo? Tinha medo de 
que com o tempo Lenox passasse a encar-la como uma mulher vulgar. Temia 
perceber-lhe no olhar a mesma expresso com que os homens fitavam as 
garotas de Kate Hamilton...
Talvez o duque sequer a amasse, desejando apenas seu corpo e sua 
juventude. O que faria se ele, aps tirar-lhe a inocncia, a colocasse de 
lado, como a um objeto imprestvel?
"No posso arriscar minha vida. Se Lenox me desprezasse, eu simplesmente 
morreria. "
Afinal, por que o duque no a pedira em casamento, ao invs de propor-lhe 
que se tornasse sua amante?
- Oh, meu Deus! Se ele desejava apenas meu corpo, por que me iludiu, 
afirmando que me amava, daquele modo que quase me deixou cega de paixo? 
Como Lenox foi cnico... Como ele foi cruel e impiedoso comigo...
Enquanto descia a escada que dava para o imenso vestbulo da manso, 
Vanessa sentiu-se prestes a desmaiar. Estava linda
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no vestido de noiva, apesar da palidez mortal que tomara conta de seu 
rosto.
Quando chegou ao saguo encontrou o av, amparado por dois criados que os 
acompanhariam, todos vestidos com trajes de gala.
A carruagem fora decorada para a ocasio e at mesmo os cavalos 
ostentavam plumas de avestruz nas cabeas, em homenagem aos noivos.
Na sada, o av lhe entregara um buque de lrios do campo, simbolizando a 
pureza, bem diferentes das flores vermelhas que adornavam as "saletas de 
refeies" na casa noturna de Kate.
- Boa sorte, lady Vanessa! - desejou-lhe o mordomo, enquanto a ajudava a 
entrar na carruagem, onde o conde j se acomodara.
- Obrigada.
Vanessa surpreendeu-se ao ouvir o tom calmo de sua voz, contrastando com 
os gritos impacientes do av, que ordenava:
- Vamos! Vamos! Chegaremos atrasados ao casamento, se ficarmos aqui 
perdendo tempo.
- Mas eles no podem comear a cerimnia sem mim, vov
- lembrou-o, sorrindo diante da ansiedade do bom homem.
- Detesto chegar atrasado a qualquer lugar. Alm do mais, sua me era 
muito pontual em seus compromissos... Caso no fosse, eu ficaria muito 
bravo com ela!
Vanessa pousou as mos com carinho sobre as do av.
- Obrigada por ter sido to gentil comigo, desde que vim morar aqui.
- Gentil? Mas claro que fui gentil! Voc  minha filha, no ? Acho que 
voc far um timo casamento. Brook  um timo sujeito e tomar conta de 
voc direitinho.
Percebendo que o conde a confundia novamente com sua me, Vanessa 
respondeu, paciente:
- Sim, vov, tenho certeza de que ele ser muito bom para mim.
Logo a carruagem seguia a trote ao longo da alameda arborizada. De 
repente, um pouco antes de chegarem s casas ocupadas pelos criados, os 
cavalos pararam.
- O que aconteceu? Por que estacionamos aqui? - perguntou
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o velho asperamente, parecendo muito nervoso com o imprevisto. -
Ainda no chegamos  frente da igreja! Esses criados...
Vanessa tambm quis saber o que se passava, mas, no momento em que 
inclinou o corpo para espiar pela janela, a porta foi aberta e um homem 
de mscara colocou a cabea para dentro da carruagem, como se estivesse  
procura de algo... ou de algum.
Mal acreditando no que via, Vanessa fitou-o, porm antes que pudesse 
fazer um nico movimento o homem avanou, pegando-a do banco e levando-a 
para fora do veculo.
Gritou apavorada, enquanto o mascarado a carregava para outra carruagem 
fechada, que bloqueava toda a alameda.
Na boleia, o cocheiro e o criado do conde estavam com as mos erguidas, 
no clssico gesto de rendio, e Vanessa pde notar que outro homem 
mascarado, montado em um cavalo, apontava um revlver para eles, de modo 
ameaador.
Quando o homem que a carregava depositou-a no banco da outra carruagem, 
Vanessa conseguiu perguntar:
- Mas o que est acontecendo? O que est pretendendo?
- No tenha medo, est tudo bem... - respondeu ele, calmamente.
Antes que Vanessa pudesse replicar qualquer coisa ou se desse conta de 
que o av no a acompanhava, a carruagem fechada partiu em alta 
velocidade, atravessando os portes da manso Sandridge em direo oposta 
 da capela onde ia se casar.
Completamente aturdida e incapaz de raciocinar com clareza, Vanessa 
recostou-se no banco macio do veculo. Fora raptada e sequer imaginava o 
motivo.
Tinha conscincia apenas de que a carruagem corria demais, dando a 
impresso de estar sendo puxada por quatro cavalos.
Inclinando o corpo para a frente, viu que os dois homens mascarados 
cavalgavam armados,  frente.
"Quem so eles? O que est acontecendo?", perguntava a si mesma, atnita.
Nesse instante, quase como uma melodia distante, uma pequena chama de 
esperana invadiu seu corao, fazendo-a esquecer-se de suas preocupaes 
em relao ao av e ao que
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aconteceria na capela, onde o coronel Edward Brook a aguardava.
Assim que Vanessa avistou uma pequena capela de pedras cinzentas, os 
cavalos pararam. com o corao batendo de maneira descompassada, esperou
fpelo que iria acontecer. Um homem, agora sem mscara, abriu-llhe a porta,
ajudando-a a descer.
Era loiro, de olhos azuis, e Vanessa teve a vaga impresso de
que j o vira antes.
- Quer descer, por favor? - pediu ele, sorrindo.
Vanessa recordou-se de imediato de onde o conhecia. Tratava-se do bonito 
rapaz que acompanhava Lenox quando este
fora procur-la na casa de Kate Hamilton.
Esforando-se para recobrar o autocontrole, apesar da respirao 
ofegante, estendeu a mo e, enquanto o jovem a ajudava
a descer os degraus, Vanessa pde ouvir, atravs da porta aberta da 
igreja, uma das composies do pai. O rapaz tomou-lhe o brao e falou, 
tranquilizando-a:
- No tenha medo.
Embora ela desejasse dizer que no tinha receio, a voz morrera-lhe na 
garganta. Assim, tudo o que fez foi fit-lo atordoada, atravs do vu que 
lhe encobria o rosto.
- Voc est muito bonita! - elogiou ele calmamente, enquanto a conduzia 
para dentro da capela.
O lugar, pequeno e aconchegante, parecia vibrar com as notas da cano de 
amor que Sandor Szeleti compusera para sua amada Melina.
A melodia invadiu-lhe igualmente o corpo e o corao e, quando o rapaz 
acompanhou-a lentamente at o altar, Vanessa sorriu maravilhada ao ver 
quem a esperava.
Lenox, seu amado, estendia-lhe as mos, num gesto cheio de amor. Quando 
seus dedos se tocaram, Vanessa sentiu que suas vibraes se juntavam s 
dele, transformando-os em uma s pessoa.
Permaneceram em silncio, pois no havia necessidade de palavras.
Vanessa podia pensar apenas que o milagre que tanto esperara havia se 
concretizado. Seus pais a tinham salvado no ltimo
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momento e estavam ao seu lado, abenoando os dois noivos apaixonados.
Em alguns segundos a cerimnia comeou, fazendo-a estremecer de emoo 
quando o duque disse o "sim" com firmeza e sinceridade.
Ao final, Lenox tirou o vu do rosto de Vanessa, jogou-o sobre a grinalda 
de flores de laranjeira e fitou-a, antes de beij-la docemente nos 
lbios, num gesto de dedicao e ternura.
Agora pertenciam um ao outro, no apenas pelo amor que os unia, mas 
tambm pelos votos sagrados que haviam trocado.
Cheios de felicidade, desceram do altar de mos dadas e o entusiasmo de 
Vanessa era tanto que ela sentia vontade de danar e cantar, desejando 
que todos partilhassem de sua alegria.
J fora da capela, Vanessa ergueu os olhos para fitar o rosto do marido.
- Voc  minha - afirmou Lenox, enquanto percorriam um atalho curto, em 
direo  carruagem.
Vanessa nada respondeu, pois lhe era impossvel falar. S quando j 
estavam partindo virou-se para ele e indagou:
-  verdade que tudo isso est acontecendo? Estou mesmo casada com voc? 
Acho inacreditvel...
- Voc  minha esposa! Minha querida, tenho muitas coisas para lhe dizer, 
para lhe explicar, mas agora s quero beij-la, para ter certeza absoluta 
de que voc  real e de que no a perderei novamente.
Logo os lbios de Lenox pousavam sobre os dela, apaixonados e exigentes, 
transportando-a para o paraso. Pertencia a Lenox, tinham sido abenoados 
por Deus e eram uma s pessoa.
Dirigiram-se para uma casa que ficava na estrada para Dover.
- No quero que voc se canse, meu amor - esclareceu Lenox, de repente. - 
Por isso vamos passar uma noite, ou talvez duas, em minha residncia de 
Kent.
- Vamos ficar... sozinhos?
- S voc e eu.
-  isso que mais desejo... Mais do que qualquer outra coisa no mundo!
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Ao subir as escadas e ver duas criadas  sua espera, Vanessa tentou 
imaginar como faria para vestir-se, pois s dispunha do vestido de noiva 
que estava usando.
Mas, depois de tomar um banho perfumado, entrou no quarto de dormir e viu 
sobre a cama um lindo traje de noite branco e prateado.
- De quem  este vestido?
-  seu, milady! - respondeu uma das criadas.
- Meu?
- Seu enxoval chegou de Londres esta manh. Desempacotamos o que a 
senhora usar aqui e o restante seguir viagem.
Vanessa prendeu a respirao, mas sabia que no adiantava fazer 
perguntas. Quando estava descendo para o salo onde Lenox a esperava, 
entretanto, fervia de vontade de saber por que o vestido branco e 
prateado lhe servia to bem e de onde aquelas roupas tinham vindo.
Entrou na sala e viu Lenox parado diante da lareira. Por um momento 
ficaram apenas olhando um para o outro. Em seguida ele estendeu os braos 
aconchegando-a contra si e fazendo-a sentir que no existia nada mais 
maravilhoso e reconfortante do que a sensao de segurana que ele 
transmitia.
- Eu te amo! - disse Vanessa, olhando-o fixamente.
- Eu tambm te amo, querida! Mas, por Deus, nunca mais me abandone! Se 
tornar a me deixar sozinho, acho que enlouquecerei! No suportaria passar 
novamente pelo sofrimento de imaginar que a havia perdido para sempre.
- No quis deix-lo infeliz.
- E voc, foi feliz sem mim?
Ao lembrar-se das lgrimas que chorava todas as noites, Vanessa escondeu 
o rosto no peito do marido.
- Senti-me como se tivesse morrido! Sem voc havia apenas escurido e um 
mundo sem significado...
- Agora voc  minha e nada mais poder nos separar, meu amor!
Lenox beijou-a intensamente e no havia outra coisa a fazer a no ser 
usufruir de mais aquele momento de delicado e ntimo prazer.
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Quando terminaram de jantar e os criados se retiraram do salo, voltaram 
a conversar.
- Meu amor, confesso que estou envergonhado por t-la insultado e 
magoado. Sei que  difcil compreender, mas se me ama, Vanessa, quero que 
tente.
- Eu amo voc! Amo-o tanto que, agora que sou sua esposa, nada mais tem 
importncia para mim.
- Enquanto me vestia para o jantar, pensei que apenas o destino nos 
salvou de vivermos separados para todo o sempre. Neste exato momento voc 
poderia estar casada com outro homem...
- No quero nem pensar nisso.
- Vamos esquecer o passado para sempre, querida, mas antes preciso saber 
se voc me perdoa.
Lenox levou a mo dela aos lbios, com doura.
- No h nada para perdoar.
- Sim, h sim. Depois que voc fugiu, percebi o quanto a magoara, fazendo 
pouco de sua pureza.
Permaneceram em silncio por um instante, antes que Vanessa revelasse com 
voz hesitante:
- Pensei que... que pelo fato de eu ter convivido com mulheres como 
aquelas da casa de Kate Hamilton voc no pudesse me... respeitar.
Como esperava que Lenox retrucasse alguma coisa, Vanessa encarou-o, 
espantando-se com a expresso de dor profundamente estampada no rosto 
dele. Arrependendo-se de ter mencionado aquele fato, declarou:
- Desculpe-me. Eu no devia ter dito isso!
- Eu imaginava que fosse isso que voc estava pensando. Essa ideia no me 
saa da cabea e tive medo de enlouquecer.
Ele a beijou com infinito carinho e continuou:
- Sempre achei que meu casamento seria completamente enfadonho, por isso 
jamais consegui associ-la  imagem de uma esposa escolhida por 
convenincia. Voc entende isso?
Lenox calou-se por alguns momentos, parecendo muito aflito, e 
acrescentou:
- Voc era algo to especial para mim que no consegui
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juntar as duas imagens, entende? S sabia que voc havia conquistado meu
corpo, minha alma e meu corao.
- Sei o que voc sentiu. Agora que vi a casa onde mame foi criada, 
percebi o quanto ela foi corajosa por ter abandonado tudo para se unir a 
um homem que meu av no aprovava, considerando-o indigno de ser seu 
genro.
- Voc acredita que em nenhum momento pensei que voc no fosse digna de 
mim? Na minha mente, o casamento parecia apenas uma coisa formal, 
completamente alheia s emoes que voc despertou em mim desde que nos 
conhecemos.
- Mas voc se casou comigo.
- Casei-me com voc sem consult-la, de uma forma que deixar seu av 
chocado, alm de provocar um grande escndalo na famlia Brook. No 
entanto, meu amigo Brooky tentar facilitar as coisas ao mximo, 
explicando que nos amvamos h muito tempo e que, por razes 
independentes de nossa vontade, havamos sido obrigados a nos separar.
- Mas ele no deve contar a vov que toquei piano... na casa de Kate 
Hamilton - advertiu Vanessa, rapidamente. Ele ficaria muito triste se 
soubesse.
- Nem mesmo ns dois lembraremos ou falaremos a respeito, minha querida. 
Nada disso teria acontecido se eu no fosse idiota a ponto de no 
compreender que voc era tudo o que sempre procurei na vida.
Um sorriso iluminou o rosto do duque, que concluiu:
- Quando ouvamos a cano de amor composta por seu pai, sabamos que 
tinha sido feita para ns, mas no conseguamos sentir plenamente o que 
ela expressava.
- Ento voc entendeu! S voc poderia ter pedido para que essa msica 
fosse tocada em nosso casamento.
- Achei que voc ficaria feliz, minha querida. Toquei aquela msica 
tantas vezes que cada nota est gravada em minha memria e em minha alma.
- Eu amo voc! - disse Vanessa, aproximando-se dele. com toda a fora de 
meu corao!
Lenox abraou-a e seus lbios se encontraram. Vanessa sentia que em seus 
beijos havia um amor enorme, capaz de superar tudo no mundo.
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Pouco depois os dois se levantaram, dirigindo-se ao terrao para admirar 
o jardim.
Os ltimos raios de sol se escondiam atrs das rvores e a primeira 
estrela da noite comeava a brilhar no cu sem nuvens.
-  verdade! Diga que  mesmo verdade que estamos aqui juntos, que voc 
me ama, que sou sua esposa e que nunca mais ficarei sozinha!
- Tudo isso  verdade, minha querida. Nunca mais acordaremos longe um do 
outro! Temos uma vida imensamente feliz pela frente.
Lenox beijou a esposa at faz-la estremecer de paixo, sentindo seu 
corao bater selvagemente contra o dele.
Enquanto o que tinham sentido na igreja era sagrado e o que haviam 
encontrado sob a luz das estrelas expressava o ideal das msicas de 
Sandor Szeleti, existia tambm o outro lado do amor, no menos divino.
Muito tempo depois, Vanessa observava as estrelas brilhando no cu 
atravs da janela que Lenox havia aberto.
- Eu amo voc, querido - murmurou com a voz ainda rouca.
- Minha doce Vanessa! Fui gentil com voc? No a assustei?
- No sinto medo de nada quando estou com voc!
-  assim que eu quero que voc esteja sempre.
- Eu no poderia estar mais feliz.
- Posso dizer o mesmo, querida... Em que lugar do mundo voc gostaria de 
passar nossa lua-de-mel, Vanessa?
- Acho que voc j deve saber, mas...
- Mas  para l mesmo que vou lev-la, meu amor: para a Hungria. Quero
ouvir a msica de seu pai no lugar certo e compreender o amor como ele
compreendia. Quero aprender a fazla feliz, da mesma forma como ele
conseguiu dar toda a felicidade do mundo  sua me.
- Mal posso acreditar, Lenox. Ir para a Hungria com voc ser a coisa 
mais maravilhosa que poderia me acontecer.
-  s o que eu desejo, minha doura.
- Voc pensa em tudo, mesmo...
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- No, apenas em voc. Afinal, tive muito tempo para fazer isso.
Vanessa aproximou-se mais do marido e ambos ficaram em silncio por 
alguns momentos.
- Ainda no lhe perguntei como aquelas roupas lindas j estavam aqui 
quando chegamos.
- So coisas que arrumei durante o tempo em que estive desesperado por 
t-la perdido. Apesar de minha dor, ainda me restava alguma esperana, 
pois acreditei que Deus me ajudaria a reencontr-la.
- Ento voc comprou as roupas para mim.
- Dei-lhe um enxoval - corrigiu ele. - O que est aqui  apenas uma parte 
mnima dele, meu amor.
Percebendo que ela ainda no havia entendido, Lenox explicou sorrindo:
- Quando fui  casa da sra. Bates, verificar se voc realmente tinha ido 
embora, ela me mostrou seu quarto, onde estava aquele vestido que voc 
usava no dia em que nos conhecemos. Levei-o comigo e mandei fazer vrios 
outros na mesma medida. Muitos deles esto em Londres e compraremos 
outros tantos em Paris, no caminho de volta para casa.
- Como voc podia ter tanta certeza de que me encontraria outra vez? Eu 
havia perdido a esperana de ficar ao seu lado.
- Completamente?
- No. Rezava, pedindo a Deus que realizasse algum milagre para nos unir.
- Ele atendeu suas preces e pretendo demonstrar minha gratido fazendo 
com que um gnio como seu pai jamais seja esquecido.
Lenox fez uma pausa.
- Quando fiquei sozinho e desesperadamente infeliz, conclu que a nica 
forma de remediar minha estupidez seria ajudando compositores a 
revolucionar o meio artstico, para que a msica no seja apenas 
divertimento, mas tambm inspirao para aqueles que a ouvem.
- Voc entendeu. Oh, meu amor, meu maravilhoso amor, voc compreendeu a
mensagem de papai.
- Apenas porque voc me ensinou. Ns dois temos muito
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ainda para aprender. Quando chegarmos ao primeiro horizonte, haver
outros  nossa espera.
- Voc  maravilhoso!
Beijaram-se novamente,
sentindo-se cada vez mais prximos do ideal das msicas de Sandor Szeleti.
Aquilo era o amor, em toda a sua complexidade, xtase e beleza.
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                            ***

QUEM  BARBARA CARTLAND?
As histrias de amor de Barbara Cartland j venderam mais de cem milhes
de livros em todo o mundo. Numa poca em que a literatura d muita
importncia aos aspectos mais superficiais do sexo, o pblico se deixou
conquistar por suas heronas puras e seus heris cheios de nobres ideais.
E ficou fascinado pela maneira como constri suas tramas, em cenrios que
vo do esplendor do palcio da rainha Vitria s misteriosas vastides
das florestas tropicais ou das montanhas do Himalaia. A preciso das
reconstituies de poca  outro dos atrativos desta autora, que, alm de
j ter escrito mais de trezentos livros,  tambm historiadora e
teatrloga. Mas Barbara Cartland se interessa tanto pelos valores do
passado quanto pelos problemas do seu tempo. Por isto, recebeu o ttulo
de Dama da Ordem de So Joo de Jerusalm, por sua luta em defesa de
melhores condies de trabalho para as enfermeiras da Inglaterra, e 
presidente da Associao Nacional Britnica para a Sade.

Fim
